Entre a saúde e o preconceito: o problema da obesidade e do sobrepeso no Brasil
Enviada em 01/05/2020
No filme Preciosa - uma história de esperança, Claireece sofre fortes preconceitos devido ao seu sobrepeso, trazendo à tona no espectador a reflexão de que a obesidade não é uma doença afetada apenas pelo seu caráter biológico, mas, também, o social. Fora das telas de cinemas, observa-se uma situação análoga no país de modo que, à medida que os casos de obesidade crescem exponencialmente, o preconceito relacionado a essa condição aumenta em similar magnitude.
A priori, nota-se que, segundo pesquisa publicada pelo Ministério da Saúde, a obesidade apresentou um incremento de 67,8% entre 2006 e 2018. Isso pode ser explicado pelo aumento de redes de “fast-food”, que comercializam alimentos altamente processados e gordurosos, potenciais causadores de doenças cardiovasculares, além de serem servidos de forma imediata, o que é atrativo para o cidadão contemporâneo, cada vez com menos tempo, traduzindo o pensamento do sociólogo Zygmunt Bauman acerca da efemeridade da sociedade atual. Dessa forma, nota-se padrões da contemporaneidade como fomentadores de problemas de saúde pública.
Ademais, deve-se ater para o fato de que, hodiernamente, cultiva-se um ideal de corpo perfeito baseado nos valores da Antiguidade Clássica, que pregavam a simetria, o equilíbrio e a proporção como belo. Isso gerou no imaginário coletivo um padrão socialmente aceito, podendo ser explicado pelo processo de socialização, o qual o sociólogo Pierre Bourdieu entende como um conjunto de ideais internalizadas desde muito cedo pelo indivíduo através da relação com a família e outras instituições sociais, de forma que as pessoas obesas sofrem constante gordofobia por não se enquadrarem nesse padrão. Essa exclusão gera problemas que vão desde a dificuldade em conseguir emprego até o desenvolvimento de problemas psicológicos, como a depressão.
Portanto, é mister que o Estado tome providências cabíveis para superar o quadro atual. Destarte, o Ministério da Educação e Saúde, em parceria com o CONAR (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária), devem desenvolver publicidades veiculadas na televisão e redes sociais, bem como em escolas e espaços públicos, que alertem os indivíduos sobre o caráter duplo da obesidade e sobrepeso: biológico e social. Logo, informações acerca de opções mais saudáveis na alimentação e as consequências que a gordofobia pode trazer devem ser expostas, por meio de especialistas da área, a fim de mudar, concomitantemente, o perfil nutricional e social dos indivíduos. Assim, histórias como a de Clarieece serão evitadas.