Ensino domiciliar em questão no Brasil

Enviada em 09/10/2020

Na obra “Quincas Borba”, de Machado de Assis, Maria Benedita é uma jovem “caipira” que, ao  mudar-se para a capital, passa os dias isolada e infeliz na casa de sua prima Sofia, onde recebe uma educação erudita pela qual nunca teve interesse. Fora da ficção, é fato que a trama assemelha-se à realidade brasileira: o ensino domiciliar tem sido cada vez mais debatido no país e gera dúvidas no que diz respeito à sua eficiência. Nesse sentido, é válido avaliar  como a modalidade interfere na qualidade da educação brasileira e no processo de socialização de crianças e adolescentes.

Em primeira análise, é cabível averiguar como o ensino residencial pode influenciar negativamente na formação cognitiva dos estudantes. Consoante ao filósofo Séneca, a educação deve ser deve ser feita com cuidado, pois influi sobre toda vida. Nesse contexto, é nítido que o Brasil caminha contra tal lógica, uma vez que, a legalização da modalidade domiciliar não considera questões de cunho sociopedagógico e promove um ensino deficiente ofertado por pessoas sem qualquer qualificação didática. Como consequência disso, os jovens ficam submissos à influências educacionais negativas, como dito por Séneca, e tem seu desenvolvimento intelectual comprometido.

Somado a isso, a interferência do “Home School” no processo de socialização secundária dos indivíduos é outro fator que torna a prática ineficiente. Isso porque, a instituição escolar não é responsável apenas pela formação educacional, mas também pela construção social dos cidadãos. A exemplo, o filme “Escritores da Liberdade” retratou a história de um grupo de estudantes problemáticos e totalmente opostos que juntos enfrentam questões psicológicas e aprendem a aceitar o “diferente” com tolerância e respeito. Nesse viés, a trama assemelha-se à realidade: a convivência escolar contribui para o desenvolvimento psíquico e socioemocional dos jovens. Assim, a privação dessa experiência pode ocasionar problemas comportamentais como  egoísmo, insegurança e retraimento.

Isso posto, torna-se necessário um debate a nível nacional sobre o tema. É cabível ao Ministério da Educação sanar a problemática. Para isso, inviabilizar o ensino domiciliar, através da apresentação de dados estatísticos que comprovem seus possíveis prejuízos intelectuais e sociais e impeçam os poderes Legislativo e Judiciário de legalizarem a modalidade, é fundamental. Além disso, a criação e divulgação de propagandas midiáticas que mostrem a importância do convívio escolar, a fim de desestimular o interesse dos país pelo regime doméstico, é de extrema importância. Somente assim, o Brasil alcançará uma educação mais eficiente, igualitária e democrática que interfira positivamente na vida dos cidadãos, tal como idealizado por Séneca, e evitará que histórias como as de Maria Benedita saiam da ficção.