ENEM PPL 2016 - Alternativas para a diminuição do desperdício de alimentos no Brasil
Enviada em 27/10/2021
Na obra “Utopia”, do escritor inglês Thomas More, é retratada uma sociedade perfeita, na qual o corpo social padroniza-se pela ausência de conflitos e problemas. No entanto, o que se observa na realidade contemporânea brasileira é o oposto do que o autor prega, uma vez que o desperdício de alimentos no país, especialmente ante a insegurança alimentar dos seus extratos mais baixos, dificulta a concretização dos planos de More, e exigem a sua diminuição. Esse cenário antagônico é fruto tanto da incúria governamental, quanto da insensibilidade das elites econômicas. Diante disso, torna-se fundamental a discussão desses aspectos, a fim de assegurar o pleno funcionamento do corpo social.
Precipuamente, deve-se ressaltar a inépcia governamental com a logística dos alimentos como impulsionador desse cenário de desperdício. Segundo a teoria contratualista, os indivíduos abrem mão de sua plena liberdade, submetendo-se às leis do Estado, para que esse, em nome da coletividade, promova o bem comum. Todavia, a política – para Aristóteles, a condutora daquele ente estatal – descuida da população em favor de medidas de austeridade fiscal e defesa de um Estado mínimo. Em consequência, poucos recursos são destinados à manutenção de rodovias, ampliação e integração de modais de transportes, portos e terminais de cargas. Assim, trafegando em infraestruturas deterioradas, toda a cadeia de logística da produção agropecuária nacional sujeita-se a perdas.
Ademais, faz-se mister apontar o papel da insensibilidade das elites econômicas na falta de aproveitamento total dos alimentos. Nessa seara, o pensamento do Estado executando apenas o poder de polícia e justiça – o Estado mínimo – e da responsabilidade individual na resolução de outros entraves, sem o chamamento de terceiros em auxílio, teorizados por Robert Koselick, tiveram grande influência. Em decorrência disso, o comércio descarta toneladas de alimentos anualmente, suficientes para prover as necessidades alimentares de quase 20 milhões de vulneráveis – dados Embrapa – sem qualquer consideração com as mazelas dos desfavorecidos, tampouco enxergando responsabilidade na tessitura de alternativas. Com isso, o desperdício não cessa, mesmo com tantos necessitados.
Logo, é inadmissível que esse enredo continue a perdurar, havendo, portanto, a necessidade de medidas de combate a essa infamante situação. Para isso, o Ministério da Economia deve instituir programa multidisciplinar de contenção ao desperdício de alimentos – denominado “Alimentos sem perdas” – com o fim de promover melhoria no transporte e manejo de gêneros alimentícios, bem como criação de uma rede de aproveitamento dos descartes, com destinação final aos mais pobres. Tal iniciativa, seria implementada por meio de financiamento às obras de infraestrutura e subvenção pública para a rede de distribuição gratuita de gêneros. Desse modo, a utopia de More seria alcançada.