ENEM PPL 2016 - Alternativas para a diminuição do desperdício de alimentos no Brasil
Enviada em 02/12/2020
Na obra “Ensaio sobre a Cegueira”, José Saramago relata uma epidemia que, ao se instaurar, intensifica vertiginosamente adversidades sociais. Fora da literatura, a sociedade brasileira se encontra acometida por uma cegueira moral, análoga à descrita no romance, a qual impede que se enxergue a gravidade do desperdício de alimentos e, com isso, seu enfrentamento. Dessa forma, deve-se analisar a omissão social e o individualismo excessivo decorrente do sistema capitalista como principais mantenedores desse cenário, que necessita, assim, medidas público-privadas para seu combate.
Primeiramente, a alienação da sociedade em face da conjuntura de desperdício de alimentos possibilita a persistência do revés. Acerca disso, H. Arendt, em “A Banalidade do Mal”, refletiu sobre o fato de que, em grupos pouco críticos às estruturas político-sociais vigentes, ações prejudiciais tornam-se naturalizadas com pouca resistência. Nessa visão, pode-se observar a realidade nacional pelo escopo da filósofa alemã, uma vez que a esfera alimentar raramente é abordada sob a ótica do desperdício em programas televisivos ou anúncios, por exemplo, o que amplia a irreflexão das pessoas em relação ao tema. Logo, depreende-se que a rarefação de debates sobre a negligência com os alimentos catalisa um processo no qual essa prática deixa de ser contemplada como deletéria.
Além disso, tal cenário de desarmonia tem como propulsora a individualidade desmedida, já que, sem uma visão ampliada, as pessoas pouco refletirão sobre as consequências coletivas de seus atos. Sobre isso, o sociólogo E. Durkheim postulou que a atual atmosfera econômica baseada na competição individualista pode corromper os vínculos de solidariedade que asseguram o equilíbrio social, o que faz com que a sociedade perca sua capacidade agregadora. Nessa perspectiva, tal mentalidade egoísta impede que maus hábitos de cuidado com os alimentos sejam abandonados, visto que não impactam diretamente a vida desses indivíduos. Prova disso são dados do “o Globo” os quais delegam um décimo dos descartes aos consumidores e supermercados.
Portanto, é imprescindível que o desperdício alimentar seja combatido no Brasil. Para isso, o Governo deve, em conjunto com empresas do ramo, instituir leis a serem aprovadas no Congresso Nacional que limitarão percentuais de alimentos descartados ao longo da escala de produção, com eventuais multas a infrações. Tais leis devem ser revistas anualmente, a fim de diminuir gradualmente os índices de desperdício. Ademais, os próprios agentes devem veicular informações contundentes nas mídias digitais acerca da negligência com o cuidado dos alimentos, com o objetivo de suscitar debates e esclarecer à população. Feito isso, uma sociedade cujos princípios se afastarão de comparações com o livro de Saramago será alcançada.