ENEM 2019 - Democratização do acesso ao cinema no Brasil
Enviada em 15/01/2020
Casais apaixonados. Família reunida. Encontro dos amigos após o horário escolar. Filmes em preto e branco e Elvis Presley como galã de todos eles. Ir assistir a um filme era programa da tarde. Rotineiro. O cinema da década de 60 e 70 era hegemônico e alcançava um público heterogêneo. Importante mecanismo na disseminação cultural e essencial na socialização humana, hoje, é quase um artigo de luxo: os altos custos dos ingressos e o baixo quantitativo de salas de cinema espalhados pelo Brasil refletem o empenho na manutenção de uma exclusão social que visa manter o caráter elitista e excludente da arte. Neste sentido, percebem-se esse fatores como empecilhos na democratização do acesso ao cinema.
Em primeira análise, é interessante trazer o pensamento de John Locke para esta questão: o filósofo defende que o ser humano é uma tábula rasa, ou seja, nasce “em branco” e é construído socialmente, a partir de suas vivências e experiências. Indiscutivelmente, ter acesso à cultura é fator primordial na construção do indivíduo como figura social, não é em vão que o acesso à mesma é garantido legalmente a crianças e adolescentes. No entanto, o elevado valor dos ingressos de cinema exclui grande parte da população que não pode pagar por este serviço. Ao impedir que pessoas pobres ocupem esses espaços, percebe-se uma clara manifestação do que Bourdieu chamou de violência simbólica. O cinema, apesar de caro e inacessível, é a manifestação cultural “pop” e age como arbitrário dominante. Logo, aqueles que não chegam nesses ambientes são considerados detentores de capital cultural - além de financeiro - inferior aos demais. A imposição desse determinado arbitrário resulta na exclusão social de grupos mais pobres e retratam a desigualdade existente.
Além da questão econômica, a temática geográfica é outro empecilho à democratizacao do acesso ao cinema. Milton Santos, geografo brasileiro, disserta, há muito tempo, acerca do problrma da urbanizacao concentrada e desenvolvimento desigual como características do processo de organização brasileira. A distribuicao das salas de cinema acompanhou essa dinâmica quefavorece as metrópoles e a regiao Centro-Sul em detrimento dos extremos brasileiros e das periferias. A grande extensão territorial somada à industrialização desigual resultou no estímulo ao investimento em regiões específicas ao passo que outras sao completamente abandonadas e entendidas como não necessitadas de cultura e lazer. Enquantoa população do Centro-Sul segue bem atendido no quesito cinema e acompanhando “Coringa” e “Malévola” em 3D, no Norte e no Nordeste muita gente nasce e morre sem nunca ter pisado na sala de um.