ENEM 2017 - Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil
Enviada em 10/11/2017
Mais Atenas, menos Esparta
Ao longo da formação do Estado brasileiro, do século XVI ao XXI, o acesso limitado à formação educacional para surdos consolidou-se e permaneceu forte. Conquanto tenham sido obtidos avanços no que se refere aos direitos civis, a lenta mudança da mentalidade cidadã e a ineficácia da lei ainda são impasses para a equidade e qualidade educacional desse setor, o que configura uma grave problemática.
Mormente, ao se avaliar fatores culturais, é inconteste que o ideário social coletivo esteja entre as causas do problema. De acordo com a tábula rasa de John Locke, o ser humano nasce como uma folha em branco à espera de ser preenchida. Seguindo essa linha de pensamento, é possível perceber que a problemática da exclusão educacional de surdos pode ser inserida na teoria do filósofo iluminista, uma vez que, se um infante cresce em um ambiente onde existe uma constante discriminação contra deficientes, tende a adotar tal comportamento em decorrência da vivência em grupo. Desse modo, rastilhos de preconceito são consolidados, o que dificulta a formação educacional de deficientes auditivos.
Outrossim, é incontrovertível que a ineficácia das leis esteja entre as causas do problema. Segundo Aristóteles, a política deve ser exercida de modo que, por meio da justiça, o equilíbrio seja alcançado na sociedade. De modo similiar, constata-se que, no Brasil, a harmonia proposta pelo filósofo clássico é rompida, haja vista que, embora a Constituição assegure o acesso ao mercado de trabalho, o número de empresas que destinam parte de suas vagas empregatícias para deficientes auditivos ainda é deficitário, o que potencializa o problema no Brasil.
Destarte, infere-se que fatores culturais e políticos dificultam a debelação desse cenário retrógrado. Nessa perspectiva, o Ministério da Educação e Cultura, em parceria com a Secretaria de Defesa Social, deve implementar, no ensino de base, uma disciplina que discorra sobre a importância do exercício da alteridade, com o fito de suplantar atos discriminatórios direcionados aos surdos. Em adição, o Governo Federal, com o auxílio do Ministério do Trabalho, deve elaborar um plano de implementação de centros fiscais, com o propósito de mediar, em concomitância com as empresas, o acesso dos deficientes auditivos ao mercado de trabalho. Com essas medidas, talvez, a lógica espartana de exclusão dos menos favorecidos será debelada e, enfim, como ocorria em Atenas, as potencialidades individuais serão valorizadas.