Discussão acerca da apropriação cultural
Enviada em 30/06/2019
Como resultado de uma gama de sincretismos e de processos que levaram a uma sociedade heterogênea, o Brasil se formou tal qual é hoje. Entretanto, a discussão acerca da apropriação cultural tem relação direta com os limites associados ao respeito à religiosidade e aos costumes do outro, no mesmo instante em que, paradoxalmente, colabora para a formação da identidade nacional. Nesse sentido, essa questão levanta para si diversas nuances a serem analisadas em função dos seus pontos positivos e negativos, a depender dos limites respeitados ou não da razoabilidade. Assim, é preciso alerta-se para os perigos velados desse fenômeno.
Dentro dessa perspectiva, a apropriação cultural esteve presente durante toda a linha histórica de desenvolvimento do estado brasileiro. Nesse viés, desde que as naus lusitanas atracaram nas costas da Ilha de Vera Cruz, a troca de costumes, hábitos e fé foi inevitável na medida em que os povos indígenas e lusos conviviam cotidianamente em busca das suas próprias finalidades; e, mais tarde, diante da riqueza étnica dos povos africanos, o sincretismo cultural e religioso e as misturas de raças, que levou a heterogeneidade atual, foi o único caminho a ser seguido pela própria sociedade, dentro de um contexto que culminou na apoteose do Brasil enquanto nação. Desse modo, é perceptível que essa realidade não é, por si só, ruim, já que contribuiu significativamente para a construção da imagem contemporânea do próprio indivíduo brasileiro.
Outrossim, utilizar-se de símbolos que marcam um povo estando fora desse contexto pode, em diversos casos, resultar em graves conflitos. Nessa perspectiva, a assimilação cultural alheia pode ser entendida como uma forma de dominância de um determinado grupo étnico sobre outro à medida que exerce, mesmo que inconscientemente, uma relação de subserviência, já que se sente no direito de apropriar-se, sem uma finalidade significativa, de algumas características particulares e singulares de um povo ou de suas idiossincrasias. Dessa maneira, é fundamental a percepção cautelosa acerca dos limites até os quais se pode ir no que tange essa questão.
Dessarte, a discussão sobre a apropriação cultural é relevante e representa um problema de caráter comportamental dentro da sociedade, mas que pode ser solucionado prezando sempre pelo consenso trazido pela razão. Por isso, o Estado, na figura do Ministério da Educação, deve promover nas escolas um ambiente extraclasse em que se possa discutir essas pautas mais específicas e delicadas, a partir do incentivo financeiro para a criação desse espaço e da inserção, na própria grade curricular, a obrigatoriedade de se levantar questões como essa, a fim de permitir encontrar, pelo diálogo, o limiar do respeito ao próximo e aos seus costumes e tradições.