Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 29/10/2019
Em 1988, durante o governo do presidente José Sarney, aconteceu a promulgação da Constituição Cidadã, cujo nome foi atribuído devido ao favorecimento de todos os grupos sociais. Nela, afirma-se que o ser humano tem o direito a vida e a partir de 1997, como forma de reafirmar isso, o transplante de órgãos deixa de ser ilegal e passa a ser considerado uma forma de garantir qualidade de vida às pessoas. Embora a doação de órgãos tenha sido incentivada e legalizada pelo governo, a falta de informação sobre o assunto e a interferência parental são impasses que permeiam a questão dos transplantes de órgãos no Brasil.
Em primeira análise, é importante esclarecer que existe uma série de regras que envolvem a doação de órgãos, como a necessidade de morte cerebral para as doações feitas após a morte e também como são realizados e quais os riscos dos procedimentos nos casos das pessoas que doam alguns órgãos em vida. Apesar de existirem normas, elas não costumam chegar a todas as pessoas, pois, conforme o pensamento de Milton Santos, a sociedade atual fez com que a informação ficasse restrita a uma parcela da população, uma vez que os meios de acessá-la estão concentrados nas mãos de quem tem poder de compra dos mecanismos de acesso. Sendo assim, muitos indivíduos ficam desinformados e sem saber sobre sua importância no processo de salvamentos de outras vidas.
Em segunda análise, é importante dizer que em casos no qual os indivíduos não expressaram em documento seu desejo de ser doador, a família se torna a responsável por tomar a decisão. Essa medida dificulta os processos de transplante, uma vez que, segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), 47% dos parentes não autorizam o processo. Consoante o conceito de ação social irracional apelativa, proposto por Max Weber, o qual explica que há práticas que as pessoas realizam de forma impulsiva nos momentos emotivos. Com base nisso, é notório que os parentes, em um momento de luto, abram mão da solideriedade em detrimento da dor, negando a realização do procedimento.
Portanto, como fora explicitado, a não democratização dos meios de informação e a responsabilidade de decisão da família, em casos de falta de registro, são problemas relacionados ao dilema da doação de órgãos. Assim, o Governo Federal deve destinar verbas para a elaboração de palestras que devem acontecer nos municípios, voltadas para as comunidades locais. Esses eventos devem debater as normas envolvidas nos transplantes, dizer a importância dessa ação, esclarecer as demais dúvidas e também incentivar a criação de um documento escrito que ateste a condição de doador. Dessa maneira, a garantia da vida, proposta na Constituição, estará sendo de fato sendo realizada.