Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 29/10/2019

‘‘Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que, vendo, não veem’’. O excerto do livro ‘‘Ensaio sobre a Cegueira’’, de José Saramago, critica uma sociedade invisual ao seu contexto. Analogamente, tal obra ilustra o cenário contemporâneo, uma vez que o corpo social é inobservante sobre os dilemas da doação de órgãos, fruto da negligência governamental e de configurações comportamentais.

A princípio, o descaso estatal a contribui para o quadro vigente. Nesse sentido, o iluminista Rosseau afirma o papel do Estado em garantias sociais, contudo a prática deturpa a teoria. Outrossim, isso se evidência no frágil investimento em infraestrutura hospitar, medida que com condições necessárias para implantar roteiros técnicos no transplante, faria o processo ser mais eficiente, mas devido a falta de subsídios, isso não ocorre. Dessa forma, é inaceitável que com as altas taxas de impostos e tributos cobrados no país, o Poder Público não seja capaz de não apenas diminuir a fila de espera para doação, como também o direito à vida assegurado pela Constituição.

Não obstante, a rejeição familiar corrobora na continuidade da questão. Mormente, de acordo com a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos, 47% das famílias se recusam a doar os órgãos do parente falecido. Sob tal ótica, tal dado é reflexo, principalmente, da persistência coletiva em tratar como tabu assuntos que causam desconforto, como a morte, o que dificulta o diálogo sobre o indivíduo em se tornar doador. Dessa maneira, é inadmissível que o tecido social não tenha a percepção de que apesar da dor pela perda, tal ato de solidariedade pode salvar outras pessoas.

Torna-se evidente, portanto, que os dilemas da doação de órgãos precisa de maior notabilidade. Logo, o Tribunal de Contas da União deve direcionar capital que, por intermédio do Ministério da Saúde, será revertido em investimento nos centros cirúrgicos dos hospitais e na qualificação profissional. Ademais, essa ação será realizada por meio de cursos para a equipe médica, com a simulação do processo e terá aulas que enfatizem a comunicação e acolhimento familiar, com intuito de diminuir o número de recusas parentais. Sendo assim, como proferiu Saramago, ’’ Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.’’