Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 28/05/2019
O primeiro transplante de pulmão no Brasil ocorreu na cidade de Porto Alegre, em 1989. Este fato representou um grande avanço para medicina brasileira. No entanto, apesar da doação proporcionar uma nova expectativa de vida à diversas pessoas, vive-se uma situação em que o número de doadores permanece baixo, considerando a quantidade de pacientes na fila de espera. Nesse contexto, a negação perante à morte gerada pela falta de conhecimento e o déficit nas estruturas hospitalares são os principais obstáculos que impedem o aumento das doações.
Em primeiro plano, deve-se considerar duas condições básicas para a doação no Brasil: a morte encefálica, denominada como a interrupção das funções neurológicas de forma irreversível, e o consentimento familiar. Até o ano de 2001, todos os cidadãos brasileiros eram considerados, segundo a lei, doadores potenciais, podendo realizar a doação sem a autorização de terceiros. Contudo, esta situação mudou e o transplante passou a ser realizado a partir da autorização dos familiares. Nesse contexto, pelo menos 43% dos procedimentos não realizados têm como fato impeditivo a negação familiar. Em geral, a falta de conhecimento sobre a morte encefálica e os dilemas étnicos - religião ou até mesmo preconceito - contribuem para essa decisão.
Ademais, o processo de doação de órgãos é muito complexo. Após a retirada do órgão há uma estimativa de cinco horas para a realização do transplante, efetivado, somente, em hospitais e organizações com estruturas adequadas. Ainda sim, nota-se uma deficiência nas infraestruturas hospitalares que impede o acompanhamento das doações. Este fato deve-se a má distribuição de profissionais especializados, que estão concentrados, principalmente, nas regiões sul e sudeste, afetando regiões mais afastadas. Além disso, a falta do profissionais que compõem as UTI’s, tais como enfermeiros, fisioterapeutas e psicólogos, torna cada vez mais inviável o aumento no número de doações.
Infere-se, portanto, que a falta de doadores tornou-se um problema no Brasil que precisa de solução. Para tanto, cabe ao Governo Federal estabelecer medidas que proporcionem conhecimento à população acerca do processo de morte encefálica, envolvido na doação de órgãos, através de propagandas de conscientização, de forma que auxilie na desmitificação dos dilemas étnicos no momento da decisão familiar. Ademais, é necessário o investimento por parte do Ministério da Saúde na infraestrutura hospitalar, além de profissionais para a distribuição em áreas mais afastadas, com o objetivo de ampliar a oferta à população de organizações adequadas para o procedimento. A partir disso será possível alcançar a utopia de um país sem filas de espera.