Desafios para garantir a vacinação dos brasileiros

Enviada em 03/09/2019

Policarpo Quaresma, protagonista da obra-prima de Lima Barreto, era um nacionalista extremado que sonhava com mudanças utópicas para o Brasil e morreu frustrado ao ver que elas não aconteceram. Se vivesse hoje, por certo se decepcionaria ao notar que a sociedade pouco avançou no sentido de uma reflexão ética e moral, haja vista que entraves como os desafios para a vacinação ainda se fazem presentes no corpo social brasileiro. Nesse sentido, cabe analisar de que forma a crise atual dos discursos oficiais frente às verdades individuais influenciam na temática, bem como esclarecer o porquê da superlotação das unidades de saúde corroborarem para a abdicação da vacina, em busca de soluções eficientes para esse entrave. Em abordagem inicial, nota-se que, segundo Bauman, a crescente individualidade do século XXI, alimentada pela oferta de produtos à escolha do consumidor, permitiu que também se escolhesse em quem acreditar, de modo que, as verdades passaram a ser mais relativas e individualizadas, desvalorizando falas institucionais. Nessa perspectiva, tal problemática entra em conflito com a utopia idealizada por Barreto, na medida em que a recomendação do Estado no quesito vacinação, já não é mais levada em conta em primeira instância, assim, a população crê em teorias paralelas que, por ter lido em determinado site, revista ou propaganda, sem embasamento, tornam-se verdades. Aliás, não se pode negar que já foram instalados boatos como os de vacinas esterilizarem os indivíduos, causarem mais doenças do que previnem ou, até mesmo, implantarem autismo em crianças, por exemplo. Dessa forma, falta conhecimento concreto sobre a vacinação em determinada secção civil. Ainda convém lembrar que, segundo o historiador da medicina Charles Rosenberg, toda doença é um fenômeno biocultural que se manifesta no organismo, mas reflete modos de vida de uma determinada sociedade. Nesse contexto, consolida-se a percepção do filósofo iluminista Rousseau, em sua obra “O contrato social”. Conforme o pensador, para o bom funcionamento dos organismos sociais é preciso que haja uma relação de confiança entre o Estado e a sociedade, configurando um princípio de cooperação. À luz dessa ideia, torna-se notório que há uma ruptura do contrato social, pois um grande contingente populacional, devido à falta de tempo, é impossibilitado de se deslocar aos postos de saúde que, em geral, demoram muito a atender por se encontrarem macrocefálicos, já que não dão conta de prestar auxílio à demanda habitacional, o que fere a Constituição de 1988, em seu artigo 196, o qual diz respeito à saúde que todo o cidadão tem direito concedido pela pátria. Esse alarmante cenário em que se encontra o Brasil revela a necessidade de mudanças. Portanto, o Ministério da Saúde deve implementar um programa de esclarecimento quanto à vacinação junto às prefeituras, a partir da distribuição de cartilhas em praças de bairros, contando com a presença de um trabalhador da área da saúde, com vistas a esclarecer as dúvidas da população. Outra medida importante a ser efetivada é a administração de vacinas em escolas e ambientes de trabalho, algo que terá sucesso se os sindicatos trabalhistas e instituições acadêmicas pressionarem as unidades de saúde, assim, os hospitais ficarão mais vazios, além da praticidade conferida por esse método aos vacinados. Com essas ações, acredita-se que a vacinação será difundida, de modo a orgulhar Policarpo Quaresma.