Desafios para garantir a vacinação dos brasileiros

Enviada em 04/07/2019

Entre os dias 10 e 16 de novembro de 1904, o Rio de Janeiro presenciou uma convulsão social. A camada mais pobre da cidade se revoltou diante das iniciativas de vacinação obrigatória da população, no contexto do esforço promovido por Oswaldo Cruz para eliminação da varíola no município. De lá pra cá a relação do brasileiro com a vacinação progrediu bem - doenças como a poliomielite e a varíola foram, inclusive, erradicadas. Entretanto, nos últimos anos, tem-se registrado uma queda acentuada nas taxas nacionais de cobertura vacinal e novos surtos de doenças já controladas. Isso se deve à má distribuição dos recursos existentes e à desinformação de uma parcela da população.

Segundo dados do Ministério da Saúde (MS), entre 2010 e 2017 os recursos para vacinação passaram de cerca de 700 milhões a mais de 4,7 bilhões de reais. Todavia, no mesmo período a taxa de imunização para a poliomielite foi a menor em 12 anos. Além disso, o ano de 2018 registrou um aumento exponencial dos casos de sarampo - principalmente na região norte-, atribuídos à entrada de refugiados venezuelanos não vacinados. Tais informações revelam uma disparidade gritante entre os valores investidos e os resultados obtidos, e uma necessidade de melhor alocação de recursos.

Por outro lado, a desinformação de uma parcela da população contribui para o agravamento desse cenário.De acordo com o próprio MS, a erradicação de algumas doenças nas últimas décadas pode ter criado a falsa sensação de que a vacinação não é mais necessária ou que pode, inclusive, ser  prejudicial. Esse fenômeno tem afetado inclusive nações ricas, como os Estados Unidos que, em janeiro, registraram um surto de sarampo- doença erradicada há quase 20 anos no país. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera o chamado “movimento anti vacina” como uma ameaça à saúde mundial. As teses desse movimento encontram terreno fértil na internet, onde se propagam com facilidade entre pessoas menos instruídas, causando estragos na saúde pública mundial.

Portanto, diante da argumentação exposta, depreende-se que as razões para as quedas nas taxas de cobertura vacinal no Brasil residem na ingerência dos recursos disponíveis e na desinformação de uma parcela da população. Em vista disso, o governo federal deve, em parceria com estados e municípios, discutir formas alternativas de distribuição das verbas, priorizando cidades mais pobres e localidades mais afetadas pelos novos casos de doenças, promovendo, inclusive, a vacinação de refugiados. Por outro lado deve realizar campanhas publicitárias, a fim de conscientizar a população e, através do Ministério da Justiça, exigir que conteúdos anti-vacinação sejam retirados da internet. Somente com ações assim, situações caóticas, como aquelas ocorridas durante a campanha de imunização do Rio de Janeiro em 1904, não voltarão a ocorrer.