Desafios para a prática da leitura no Brasil
Enviada em 16/11/2021
O filósofo alemão Hegel defendeu que a literatura, enquanto uma das formas da arte, expressa características de seu tempo histórico e possibilita a interação entre receptores de momentos distintos, conduzindo a um processo de aprimoramento individual e autoconhecimento social. Contudo, na sociedade brasileira contemporânea, em razão da falta de incentivo adequado e de condições materiais propícias, apenas uma pequena parcela da população pratica o hábito da leitura, o que é especialmente danoso para os jovens estudantes que, por isso, crescem alienados, incapazes de refletir criticamente sobre o mundo.
Em primeiro lugar, é importante salientar que o Brasil é um país historicamente marcado por desigualdades socioeconômicas que repercutem na possibilidade concreta de disposição de tempo para ler, o que afeta, não só, mas principalmente, os alunos da rede pública de ensino. Quadro esse agravado pelo estágio atual do capitalismo, marcado, conforme explicou Theodor W. Adorno, pela “Indústria Cultural”, que leva as pessoas a consumirem produtos vazios de conteúdo histórico e inúteis para a apreensão da sociedade. Desse modo, os alunos que são quotidianamente submetidos a essa lógica e não tem um momento garantido para a leitura tendem, se nada for feito, a ignorar toda a produção literária que, conforme a máxima hegeliana e fazendo frente ao problema identificado por Adorno, realmente vale a pena ser consumida.
Por conseguinte, corre-se o risco de uma deterioração do processo de aprendizagem, uma vez que a inexistência de uma leitura sólida e regular impede o amadurecimento de habilidades indispensáveis para uma educação adequada, como a capacidade de interpretação textual, que só é possível a partir do conhecimento extraído das páginas dos livros. Há, então, uma situação que fere o artigo quinto, da Constituição, que garante o direito fundamental à educação de qualidade para todos os cidadãos brasileiros. A norma, portanto, encontra-se em vias de inaplicabilidade fática. Essa situação, certamente, configura-se como desagregadora e não pode ser negligenciada.
Destarte, cabe ao Ministério da Educação, em parceria com as escolas da rede pública, elaborar um programa nacional de incentivo à leitura, por meio do qual serão criados “Clubes do Livro” que, além de fornecerem os livros e um período dentro da grade curricular para a leitura, estabelecerão que os estudantes devem, com o auxílio dos professores, discutir entre si sobre suas interpretações e estabelecerem conexões entre o material lido e questões contemporâneas. Espera-se, com essa medida, minimizar os desafios para a prática da leitura no Brasil, dando aos jovens um incentivo e a chance de desfrutar do mundo das palavras.