Desafios para a conciliação da Biotecnologia e a Ética
Enviada em 16/12/2020
Na obra “Ensaio sobre a Cegueira”, do autor português José Saramago, é narrada a história de uma epidemia de cegueira branca, a qual se espalha por uma cidade e causa um grande colapso na vida das pessoas, fato que compromete as estruturas sociais. Atualmente, não longe da ficção, percebem-se aspectos semelhantes no que tange à conciliação entre a biotecnologia e a ética, visto que a sociedade brasileira parece não enxergar os desafios dessa questão, a qual ocorre, infelizmente, devido não só às falhas no ensino formal, mas também à influência das esferas socias.
Em primeiro lugar, deve-se pontuar que as falhas no ensino formal estão entre as causas da problemática. Nesse sentido, o pedagogo norte-americano Michael Apple, ao estabelecer o conceito da “mcdonaldização” das escolas, afirma que o ensino atual é uma indústria que forma indivíduos de maneira análoga às grandes empresas, isto é, constroem “operários” que realizam tarefas simples e repetitivas. Sob essa égide, percebe-se a reflexão que essa metáfora promove acerca de um grande entrave da conciliação entre a biotecnologia e a ética: a falta de conhecimento, visto que muitas escolas hodiernas — como pontua o autor — não desenvolvem o pensamento crítico, bem como capacidade de discernimento, fatores que justificam a permanência desse grave problema.
Ademais, a influência das esferas sociais também é responsável por esse impasse que persiste no Brasil. De acordo com John Locke, filósofo inglês, todos nascem como uma “tabula rasa”, sem personalidade definida, sendo o meio responsável pela formação do caráter dos cidadãos. De maneira análoga a esse pensamento, nota-se a capacidade de dominância que o meio coletivo pode exercer sobre os indivíduos, uma vez que estes — eventualmente persuadidos por amigos ou familiares — podem ser ludibriados e terem sua visão sobre a questão ética da biotecnologia deturpada, fato que constitui um desafio para superar essa conciliação.
Portanto, urge que ações sejam tomadas a fim de barrar os desafios para a conciliação entre a biotecnologia e a ética. Posto isso, as escolas — como garantidoras do direito constitucional à educação — devem realizar palestras e debates em seus ambientes para elucidar essa questão, por meio da participação de especialistas e profissionais da área (como professores de ética e direito), com o objetivo de mitigar os problemas de natureza educacional e social que perpetuam esse impasse. Dessa forma, o contexto vivenciado será gradativamente minimizado e se distanciará da realidade narrada por Saramago.