Desafios do processo de alfabetização em questão no Brasil
Enviada em 21/12/2020
Em sua obra “Utopia”, Thomas More discorre sobre uma sociedade ideal e os meios para alcançá-la, dentre eles, a igualdade de acesso à educação. Decerto, o texto do filósofo inglês vai de encontro à realidade brasileira, na qual a disparidade do ensino entre a rede pública e a privada atrelada ao baixo conhecimento interpretativo da língua resultam em desafios no processo de alfabetização no país.
Em primeira análise, pontua-se sobre a diferença de oportunidades das escolas particulares e públicas no Brasil. Ao analisar pelo viés de Martha Arretche, professora da USP, a qual postula que uma sociedade civilizada garante a todos os cidadãos direitos fundamentais, inclusive à equidade de acesso, fica claro que proporcionar realidades educacionais diferentes afeta diretamente no letramento e na alfabetização dos alunos. Segundo dados da Folha de São Paulo sobre a educação durante a pandemia, por exemplo, enquanto estudantes da rede privada tiveram acesso a plataformas digitais e estruturas programadas para aulas virtuais, os representantes da rede pública ficaram meses sem aula, culminando em prejuízos no desenvolvimento intelectual desses alunos. Infelizmente, essa não é uma situação excepcional, uma vez que reportagens do G1 antes da epidemia mundial de COVID-19 também explicitavam sobre a falta de materiais e mesmo professores em instituições do estado de São Paulo. Sendo assim, evidencia-se uma sociedade com disparidades educacionais que privilegia um grupo em detrimento de outro, resultando em déficits educacionais e de alfabetização.
Além dessas diferenças de acesso, existem indivíduos que, mesmo alfabetizados, encontram dificuldades na interpretação e no uso da língua: são os analfabetos funcionais. Em “Memórias da casa dos mortos”, o escritor Dostoiévski apresenta uma unidade prisional em que informações privilegiadas são conseguidas “nas entrelinhas”, isto é, é preciso entender o significado e um conjunto de fatores para que determinadas ações do protagonista façam sentido. Dessa maneira, a formação de alunos que sabem escrever mas não interpretar, tal qual explicitado por matéria do “Jornal da USP”, configura um grande empecilho no processo de alfabetização no país, com estudantes que enfrentarão dificuldades para compreender aspectos da linguagem que precisem de mais conhecimento.
Em suma, observa-se uma sociedade em que as diferenças de acesso e o analfabetismo funcional constituem desafios para a alfabetização no Brasil. Portanto, cabe ao Ministério da Educação e Cultura, o MEC, órgão responsável pela organização educacional no país, por meio de investimentos e incentivos fiscais às redes públicas, sanar as disparidades entre as redes escolares brasileiras e reestruturar o currículo nacional, dando enfoque maior à questão interpretativa, para que, então, a realidade de More torne-se a realidade de todo o Brasil.