Debate sobre o aumento dos casos de violência doméstica durante a quarentena
Enviada em 26/09/2021
Em 1932, Noel Rosa escrevia em uma de suas canções ‘‘Eita mulher indigesta! Merece um tijolo na testa!’’, se referindo a uma mulher que atinge a estabilidade emocional do eu lírico que revida com agressões violentas. A realidade controversa da letra de Noel sempre esteve presente na sociedade brasileira e com o advento da pandemia do corona vírus em 2020, ela se intensificou, com mulheres ficando cada vez mais em suas casas, junto com seus maridos, que podem muitas vezes afirmar violências intrínsecas à formação da sociedade que precisam de mais atenção do poder público.
Primordialmente, no livro ‘‘A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado’’, o teórico Friedrich Engels vai atrás de registros antropológicos para afirmar que: antes da idade antiga, quando o homem caçava outros animais para se alimentar, não haviam classes sociais, nem estruturas monogâmicas (uma criança em uma aldeia tinha vários pais e uma só mãe) e nem propriedade privada, porém, quando o homem passou a ser sedentário iniciaram-se as primeiras guerras e toda a lógica social começou a girar em torno da ideia de propriedade, isto é, a ideia de que tudo que é um recurso deveria ser resguardado, de que ‘‘cada um pegue o que é seu’’. As mulheres que antes eram parteiras e tinham vários pais de seus filhos, passaram a serem tomadas pelos homens dos bandos contra suas próprias vontades pois eram tratadas agora como posse e assim como toda posse, o ‘‘dono’’ da posse faz o que quiser com ela, dando início a opressão sexual da mulher e necessitando políticas mais eficientes para que essa lógica histórica seja revertida em um país como o Brasil.
Em segundo plano, a russa Alexandra Kollontai afirma que as mulheres de países não desenvolvidos tem a tendência de passar por mais exploração que as de países desenvolvidos, pois a história de países subdesenvolvidos é marcada pela escravidão e pelo colonialismo, que naturalmente subjulga homens para os trabalhos braçais e mulheres para servir de objeto da família do colono dono de terras. No Brasil, essa lógica é vista durante muito tempo pela cultura e história (mesmo o personagem Bentinho sendo transtornado e ciúmento, a personagem Capitu é culpada de traí-lo), podendo fazer com que a mulher em si não denuncie agressão por estigmas sociais atribuídos a denúncia de violência e a naturalização dessas questões na sociedade.
Portanto, em uma situação de pandemia onde a mulher se encontra em mais vulnerabilidade pois não como sair de casa para fugir de violências, o poder legislativo – instituição de autoridade em nosso país – deve investir em campanhas de divulgação da atuação da delegacia da mulher (órgão onde as vítimas devem denunciar seus agressores) visando reverter a lógica de normalização cultural e social da violência doméstica. Só assim seria encontrada uma solução cabal para esse problema.