Debate sobre o aumento dos casos de violência doméstica durante a quarentena

Enviada em 25/09/2021

Na série brasileira “Bom dia Verônica”, a personagem Janete sofre constantes agressões físicas e psicológicas do marido, o que retrata o desprezo pela figura feminina. Em consonância com a realidade de Janete, está a de muitas cidadãs, visto que o avanço de casos de abusos contra as mulheres se faz presente no terceiro milênio. Dessa forma, é crucial que discuta-se acerca do aumento da violência doméstica durante a quarentena, não somente por motivos de desigualdade de gênero, mas, também, pela negligência governamental.

A princípio, vale apontar que a persistência da violência doméstica é decorrente da invisibilidade histórica associada às mulheres. Para entender tal apontamento, é válido relembrar o pensamento de Pierre Bordieu, na medida em que ele afirma que “Toda ordem estabelecida tende a produzir a naturalização de sua própria arbitrariedade”, isto é, enquanto a igualdade de gênero não for conquistada, o abuso físico e psicológico contra a figura feminina ainda será silenciado e naturalizado na sociedade pós-moderna. Outrossim, a violência intrafamiliar no espaço particular é negligenciada como problema de saúde pública, uma vez que ocasiona ferimentos físicos e emocionais, levando a vítima a necessitar de maior cuidados hospitalares. Nesse contexto, evidencia-se que as agressões domésticas configuram também uma violação dos direitos humanos, ferindo a dignidade das vítimas.

Ademais, é fundamental ressaltar a maneira como parte do Estado costuma lidar com o tratamento ofertado às vítimas de violência doméstica. Isso porque, consoante a teoria das Instituições Zumbis, de  Zygmunt Bauman, as esferas governamentais, embora presentes, não cumprem seu papel com eficácia. Prova disso é a falta de políticas públicas satisfatórias voltadas para a aplicação de uma rede de denúncia de fácil acesso, principalmente num contexto de isolamento social, visto que há mais interação entre a vítima e o agressor no espaço privado, dificultando, assim, a comunicação do crime e o pedido de ajuda. Desse modo, para que a teoria do sociólogo polonês seja refutada, é imprescindível que a problemática seja revertida.

Portanto, medidas operantes são essencias para o combate da violência doméstica durante a quarentena. Para isso, compete ao Estado investir na melhora da qualidade do tratamento ofertado às vítimas nas delegacias e hospitais públicos, contratando mais profissionais qualificados na área, a fim de prestar uma maior assistência psicológica às cidadãs. Paralelamente, é dever também do Estado destinar mais verbas para a criação de uma rede de denúncia de fácil acesso, por meio da aplicação de uma linha telefônica direta, com o fito de desmantelar a burocracia no momento de queixa do crime. Assim, a cotação de Janete não será uma realidade na sociedade pós-moderna.