Debate sobre o aumento dos casos de violência doméstica durante a quarentena
Enviada em 28/06/2020
Os “cegos malvados” são personagens criados por José Saramago, em seu livro “Ensaio sobre a cegueira”, os quais, durante o período de vulnerabilidade das pessoas em quarentena, devido a epidemia de cegueira, aproveitaram-se da situação para praticar atos violentos contras as mulheres. Fora da ficção, percebe-se que a conjuntura literária citada em nada difere do hodierno cenário global, visto que cresce, exponencialmente, o número de casos de violência doméstica durante a quarentena. Destarte, é fundamental analisar a situação de isolamento social associada a uma cultura machista e patriarcal como causas desse quadro.
Convém pontuar, de início, que, de acordo com a Declaração Universal do Direitos Humanos, todos os indivíduos têm direito a um ambiente seguro e isento de violência para sua sobrevivência. Entretanto, é perceptível que tal cenário não é concretizado nos dias atuais, já que, em virtude da convivência intensa e das tensões provocadas pelo isolamento social, cada vez mais mulheres são vítimas de agressão doméstica. Isso porque indivíduos mal intencionados utilizam-se da situação de calamidade pública com o intuito de justificar seus atos violentos. Assim, o sexo feminino é submetido a uma realidade marcada não só pelo medo da pandemia, mas também daquele que está ao seu lado diariamente.
Outrossim, é imprescindível ressaltar a cultura machista e patriarcal como fomentador dessa nefasta conjuntura. Sobre isso, cabe destacar o pensamento da filósofa Simone de Beauvoir, ao afirmar que, enquanto o homem é definido como ser humano, a mulher é vista como fêmea. A partir dessa visão, fica clara a posição da mulher na sociedade, a qual é determinada como um ser inferior e fraco, o que, infelizmente, favorece a prática de atos violentos contra o sexo feminino. Por conseguinte, nota-se que as mulheres são cidadãs de papel, assim como na teoria do jornalista Gilberto Dimenstein, pois seu direito a um ambiente igualitário é garantido apenas na teoria, e não na prática.
Portanto, indubitavelmente, vê-se a necessidade de medidas capazes de mitigar esse panorama. Logo, compete à mídia socialmente engajada promover a ampla divulgação dos meios de denúncia contra a violência doméstica. Isso pode ser feito por meio de propagandas televisivas e plataformas digitais, a fim de que as mulheres tenham maior conhecimento sobre o sistema de denúncia e sintam-se seguras para efetivar a acusação. Somente assim, o “cegos malvados” do mundo contemporâneo serão punidos pelas suas ações.