Debate sobre a gordofobia no Brasil

Enviada em 16/08/2021

‘‘Se podes olhar, vê. Se podes ver, respera’’, essas foram as palavras grafadas na epígrafe da obra ‘‘Ensaio sobre a cegueira’’. Sob autoria do escritor José Saramago, a história retrata a volatilidade das questões éticas e morais de uma sociedade exposta ao caos e ao preconceito. Sem desconsiderar o caráter distópico dessa obra, é nítido que a desinformação é socialmente degradante e, é nítido que a ‘‘cegueira branca’’ foi a causa de tanta barbárie na ficção, o desconhecimento e o estigma social da obesidade têm sido um gatilho para o enfraquecimento da sociedade brasileira. Logo, a partir desse contexto, para entender as consequências desse preconceito, é imprescindível ir à origem dele.

A princípio, é lúcido salientar que a herança ideológica dos padrões de beleza, como uma característica congênita destinada aos corpos magros, conserva-se na coletividade e perpetua a exclusão dos biótipos protuberantes. Isso acontece, porque, com base na teoria da filósofa Márcia Tiburi, ‘‘vivemos em um mundo que considera o corpo sem gorduras como ideal’’, conceitos os quais aumentam casos de bulimia e anorexia. Sob essa ótica, constata-se que o discurso de beleza congênita na modernidade moldou o comportamento do cidadão a acreditar que o único corpo pulcro deve se restringir a determinada parcela da sociedade, o que fortalece essa anomalia social. Tal questão pode ser comprovada, por exemplo, por meio de dados da revista Veja, os quais apontam que 10% dos jovens brasileiros sofrem de transtornos alimentares degradantes que almejam a busca do corpo perfeito.

Ademais, observa-se, que o crescimento dos discursos gordofóbicos está diretamente associado a problemas educacionais. Isso porque, a educação tem o poder de propiciar a integração de diversos modelos étnicos e culturais, de modo a estimular o posicionamento humano acerca de temáticas cotidianas e de refletir sobre assuntos sociais. Todavia, quando o acesso não é efetivado integralmente, sobretudo no meio da população mais pobre, discursos ignorantes, consequentemente, tendem a surgir. Tal questão pode ser comprovada, por exemplo, por meio de dados do blog Hypeness, os quais apontam que a gordofobia faz parte da rotina de 92% dos brasileiros.

Portanto, é evidente que discursos gordofóbicos fomentam um quadro de anomia social no Brasil. Assim, é fundamental que o Poder Executivo, mais especificamente o Ministério da Educação, fomente palestras e centros de apoio em todo o país. Tal iniciativa ocorrerá por meio da implantação de um Projeto Nacional de Combate à Gordofobia, o qual coordenará um programa educativo de integração informacional entre os jovens. Isso será feito, a fim de proporcionar uma melhor vivência daqueles que se acham fora dos padrões de beleza, pois possibilitará a execução de ações específicas nessa conjuntura. Afinal, a situação da ‘‘cegueira branca’’ assusta até na ficção.