Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 27/10/2020
O eminente jurista Rui Barbosa, em seu conhecido discurso “Oração aos Moços” diz que bem pode haver ira sem haver pecado. O faz citando o episódio da Bíblia em que Jesus expulsa os vendedores do templo, argumentando que nem sempre a ira é maldade; muitas vezes ela é oportuna e e necessária. A isso se relaciona também à cultura do cancelamento que, no tempo atual, reverbera injustiças indicando também a necessidade de correção com a qual muitos internautas se solidarizam.
É nesse sentido que também o escritor Mario Vargas Llosa, em “A Civilização do Espetáculo”, diz que a cultura deve ser uma forma de consciência que chame a atenção aos problemas da sociedade. Entretanto, uma crítica viável à cultura do cancelamento reside em seu caráter novidadeiro, porque o que é escandaloso também resulta numa forma de distração: o esquecer-se de si, quando, num ímpeto de fúria, milhares de pessoas se colocam a comentar e compartilhar conteúdos que os revoltam, mas logo esquecem - até o surgimento de um mais novo acontecimento.
Dessa forma, tal cultura nem sempre traz resultados permanentes, como é o caso do jornalista William Waack que foi recontratado por outra emissora quando o caso da piada racista foi olvidado. No entanto, é bem verdade que o desgaste na imagem e na moral é quase sempre tão grande que a justiça é feita propriamente ali, restando como problema eventuais excessos ou injustiças. Em tais casos, devem ser observadas as garantias da Justiça no que diz respeito a infâmia, difamação e calúnia, principalmente quando se propagam inverdades.
É nesse contexto que deve ser incentivado pela sociedade e pelo governo federal a averiguação e acompanhamento dos casos de cancelamento por meio do financiamento de agências de fact-checking, em que elas podem também dar vazão a uma defesa prévia do cancelado, de maneira extrajudicial, em que ele também poderá constar seu ponto de vista sobre os fatos. Por fim, nenhum indivíduo está alheio a cometer erros e nenhuma empresa está imune à possibilidade de ocorrem injustiças com seus funcionários; o importante é que venham a corrigir-se e adequar suas atitudes ou as condutas de seus gestores. À vista disso, a cultura do cancelamento pode contribuir na diminuição do assédio moral, sexual e racial nas organizações.