Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 24/10/2020
O avanço exponencial da tecnologia possibilitou a conexão instantânea entre indivíduos de todo o mundo através da internet, principalmente com o surgimento das redes sociais. No entanto, algo que se apresenta como benéfico acaba por acarretar impasses como é o caso da cultura do cancelamento. O termo se refere ao ato de deixar de apoiar ou de excluir um indivíduo baseado em atitudes julgadas ruins, e surgiu não só pela vulnerabilidade dos utilizadores da rede mas também pelo costume enraizado no homem de atacar ao próximo. É preocupante a agressividade de tal movimento, já que muitas das vezes a represália não dá espaço para o aprendizado ou evolução, como cunhado “a internet não esquece”.
Em primeira análise, entende-se que no mundo digital, onde tudo é documentado e exposto e há a possibilidade de se manter anônimo alimentando a coragem de dizer o que se bem entende, qualquer um é passível de ser “cancelado”. Essa exposição por vezes é necessária, como por exemplo no movimento denominado “MeToo” que expôs diversos casos de agressão e assédio sexual, contendo inclusive denúncias contra o famoso produtor de cinema Harvey Weinstein que posteriormente foi de fato condenado. Contudo, há uma linha tênue entre trazer à tona uma problemática e promover um linchamento.
Outrossim, é perceptível que tal cultura foi cravada na história da humanidade, haja vista que, na antiguidade, os romanos tinham como lazer presenciar o assassinato de indivíduos incriminados no coliseu. Somado a isso, multidões se reuniam em praças públicas para assistir mulheres denominadas ‘‘bruxas’’ serem queimadas vivas pela Igreja Católica durante a Inquisição. Assim, percebe-se que a hostilidade presente no mundo virtual é reflexo de uma sociedade ofensiva que se aproveita do anonimato da internet para disseminar o ódio.
A vulnerabilidade da verdade deve sempre ser tomada como uma variável, além disso a evolução é inerente do ser humano por isso condenações perpétuas não são cabíveis à erros pontuais. Portanto, diante desse cenário, é preciso que os veículos midiáticos divulguem campanhas e projetos educativos que informem sobre o impacto causado pelo ódio disseminado na internet e maneiras saudáveis de mobilização a fim de criar uma atmosfera virtual harmoniosa que seja pacífica, mas não cega. Assim, será possível atenuar a problemática e possibilitar que exista espaço para denúncia mas também para aprendizado.