Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 24/10/2020
Há alguns meses, a influencer Gabriela Pugliesi foi vítima de diversos ataques virtuais por ter feito comentários banalizando o contexto de pandemia do coronavírus. A revolta dos internautas fez com que a “blogueira” perdesse vários contratos de trabalho, além de ter desativado sua conta por alguns meses. Tal episódio se liga a uma chamada cultura do cancelamento, na qual indivíduos são rechaçados por comentários devido à exposição de alguma opinião reprovada na internet. Nesse contexto, convém analisar as vantagens e desvantagens desse novo aspecto da contemporaneidade. Em primeiro lugar, é necessário considerar o caráter positivo que um cancelamento pode assumir. Para o educador Paulo Freire, o primeiro passo para a mudança de um cenário negativo é a “indignação justa”. Desse modo, avalia-se que a base para um cancelamento, muitas vezes, parte de uma insatisfação gerada por um episódio adverso. O caso de Pugliesi, por exemplo, provocou indignação em muita gente devido ao desprezo oferecido por ela às vidas perdidas naquele período, e a fez repensar a maneira como estava se manifestando sobre o assunto. Assim, apesar de consistir em um episódio negativo, tal cancelamento resultou em um aprendizado valioso.
Ademais, também se deve analisar o impacto psicológico negativo que o recebimento de tantos comentários condenatórios pode gerar. O filósofo Michael Foucault afirma que o indivíduo se constrói a partir do olhar do outro. Logo, tem-se que o excesso de opiniões rejeitosas pode levar o sujeito a uma verdadeira crise de identidade. Conforme o ritual de cancelamento, o exagero de comentários depreciativos pode fazer o indivíduo se voltar contra si mesmo, ao se ver diante de tanta rejeição. A partir disso, o cancelamento, em vez de levar à correção de um erro, pode acabar em sérios problemas psicológicos, como a depressão.
Portanto, para que se possa mudar a realidade negativa advinda da cultura do cancelamento, é necessário agir. Logo, o Governo – como agente regulador da sociedade – deve promover debates interativos nas redes sociais, por meio de lives no Youtube, Twitter e Instagram, a fim de provocar uma reflexão acerca dos perigos que um “cancelamento” pode ofertar. Espera-se que, com isso, o debate virtual assuma um tom mais saudável.