Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 22/10/2020
A historiografia retrata os linchamentos da Idade Média como eventos corriqueiros e banais nos quais a sentença era antecipada e coletivamente decidida. No entanto, para além do retrato histórico, tal prática cristalizou-se na contemporaneidade sob a forma da “cultura do cancelamento”, ocorrida no território sem-lei das redes sociais sob a forma de constrangimento. Dessa forma, tal comportamento traduz um espírito coercitivo, de intolerância e falta de bom senso, que resulta em consequências como violência e sectarismo e revelam uma realidade difícil de compreender.
Em primeiro lugar, vale salientar, que a cultura do cancelamento baseia-se no hodiernamente polarizado mundo da pós-verdade. Desta feita, conforme Nietzsche afirmou, “o fato pouco importa, e sim, a versão”, que é lida nos dias atuais de acordo com as ideologias próprias de cada grupo, cuja interpretação se faz cada vez mais extremista. Assim, não abre-se espaço para o direito do contraditório, não há a desconstrução das ideias proferidas, o que resulta no efeito reverso, ou seja, no crescimento exponencial do discurso da pessoa cancelada. Nesses termos, o cancelamento alimenta um círculo contraproducente, tornando-se, iminentemente, inócuo.
Por outro lado, tal comportamento parece refletir um certo tipo de “Burnout” da sociedade atual com se estado de hiperconectividade. Ou seja, há uma fadiga dos sujeitos pelo fato se serem imbuídos a se posicionar constantemente sobre temas variados e diversos, muitos desses importantes, como os de pautas identitárias e movimentos político-ambientais, para citar alguns. Entretanto, se advindo com feroz reatividade, a exclusão efêmera elimina o autor do discurso mas não a ideia. Acaba-se apenas por expor, coagir e linchar, como em um dia de domingo medieval.
Depreende-se, em vista disso, que medidas precisam ser tomadas para resolução dessa problemática. Nesse viés, as redes sociais – palco onde sucedem tais eventos – devem instituir um rastreio dos casos relacionados utilizando-se de seus algoritmos para potencializar a voz da pessoa cancelada e proporcionar o direito do contraditório. Logo, essa iniciativa promoveria de imediato a não discriminação e contribuiria para o fomento do debate, da informação prévia e da desconstrução das ideias negativas. Assim, evitaria-se incorrer no erro do linchamento contemporâneo ao propiciar autocrítica mútua e, sobretudo, empatia.