Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 20/10/2020

O movimento do cancelamento surgiu com o intuito de que pessoas comuns pudessem manifestar suas opiniões na internet acerca de pautas sociais, ao passo que cobravam de personalidades famosas um posicionamento, para que a o tema fosse mais divulgado. Todavia, com a popularização desse fenômeno digital, passou a existir uma perda de seu propósito inicial. Outrora, ele visava incentivar um pensamento mais crítico da população, agora, é comumente repleto de direcionadas postagens maldosas, com o intuito de ganhar engajamento nas redes sociais, o que não contribui para formar uma sociedade mais justa, somente para o linchamento público.

Em primeiro plano, é válido ressaltar que tal posicionamento digital, essencialmente, não é algo ruim. Segundo o “Princípio da maior felicidade” do filósofo utilitarista John Stuart Mill, uma ação ética é aquela que causa o maior bem para o máximo de pessoas. Seguindo essa linha de pensamento, o ato de se criticar uma postura injusta pode ser benéfico, porque é incentivada a reflexão a respeito de tal comportamento e consequente mudança de atitudes do indivíduo, como foi o caso da modelo Maju Trindade, que após ser cancelada por tweets racistas, assumiu seu o erro e não o cometeu novamente. Dessa forma, em casos como o dela, o cancelamento auxilia no conhecimento de questões importantes, além de levar tais debates a internautas que não tem essa oportunidade fora das telas, beneficiando, assim, muitas pessoas.

Em segundo plano, é cabe analisar o limite entre o julgamento benigno na web e ciberbullying: há casos em que através do cancelamento ocorre uma agressão, ao incitar discursos de ódio. Nesse sentido, a cantora Luisa Sonza anunciou seu novo relacionamento, meses após se divorciar. Por conta disso, usuários de plataformas digitais a humilharam por supor uma traição de sua parte, ainda que seu ex-marido negasse tal acusação. Ou seja, seu cancelamento foi maléfico, pois não estimulou a reflexão sobre uma problemática social, além de não ter sido baseado em fatos concretos. Somado a isso, os cidadãos que sofrem injustamente com tal posicionamento popular podem desenvolver problemas psicológicos, como ansiedade e depressão, acarretando em enfermidades para a população brasileira.

Portanto, tal movimento tem diferentes faces, sendo necessários cuidados para garantir sua eficiência. Para isso, é preciso que o Ministério da Cultura, divulgue, através das redes sociais, campanhas de conscientização, voltadas principalmente para o público jovem, que apoiem a liberdade de expressão e a luta por direitos, mas repudiem os discursos de ódio nas redes, abordando suas consequências. Dessa maneira, a cultura do cancelamento continuará a existir, mas com o direcionamento correto - o debate sobre problemáticas sociais - garantindo o “Princípio da maior felicidade”.