Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 19/10/2020

No livro “1984”, de George Orwell, existiam os “minutos de ódio”, período em que a população exercia um ataque coletivo a um inimigo, por meio de xingamentos e gritos, para consolidar o alvo como alguém digno de punições. Essa ficção dialoga com a atualidade, uma vez que a cultura do cancelamento enquadra pessoas e empresas como merecedoras de exclusão e violência. Nesse sentido, é importante discutir sobre o cancelamento na sociedade contemporânea, pois essa dinâmica promove injustiças e impede que debates importantes sejam realizados.

A princípio, é notório que a ação de cancelar um indivíduo nas redes sociais pode ser considerada uma justiça social, visto que julga e condena sem aval do sistema judiciário. Tal fato é preocupante, uma vez que, de acordo com o filósofo John Locke, o Estado é detentor do monopólio da Justiça, pois esse possui ferramentas , como juízes, advogados e tribunais, os quais garantem a isonomia dos cidadãos. Desse modo, quando um grupo promove cancelamentos, existe a possibilidade de culpar pessoas inocentes, que podem sofrer ataques verbais ou físicos, fato que possibilita o desenvolvimento de quadros como ansiedade e depressão. Essa realidade pode ser vista no caso do ginasta Diego Hypólito, que sofreu ameaças por postar uma foto com o presidente, o que mostra o perigo desse ato coletivo.

Outrossim, é visto que a cultura do cancelamento dificulta que problemas atuais sejam discutidos e resolvidos de forma eficaz. Isso é perceptível ao notar que os atos de cancelamento ocorrem muitas vezes por motivo torpe, como um mal uso de palavras ou uma interpretação errônea, o que impede que problemas sérios, visto a desigualdade social, violência ou preconceito, sejam evidenciados e combatidos de maneira eficiente. Esse panorama é visível no cancelamento de certas marcas que utilizam o termo ‘‘Black Friday’’, uma vez que certos grupos entendem que a utilização da palavra “preta”, em inglês, remete a um racismo estrutural. Nesse sentido, é possível interpretar que a ação de cancelar vai de encontro com o pensamento do sociólogo Émile Durkheim, pois, esse ato impede que a a sociedade seja coesa como um “corpo biológico”, fato que dificulta resoluções importantes.

Portanto, para que a atualidade não reflita a ficção de Orwell é fundamental que atos de cancelamento sejam controlados. Para isso, cabe às Redes Sociais impedir que atos de cancelamento infundados ocorram, por meio da vigilância e punição de usuários que promovam um discurso violento, podendo por exemplo banir esses indivíduos e também impossibilitar que mídias sem contexto ou falsas sejam propagadas, a fim de impedir o cancelamento de pessoas inocentes. Ademais, é papel da Sociedade discutir assuntos relevantes para a mudança social, para que o respeito e coesão imperem.