Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 19/10/2020
Violento.Ofensivo.Condenável. Esses são posturas, consideradas por determinados grupos, que justificam o “cancelamento” do indivíduo nas mídias sociais. Entretanto, em uma sociedade intolerante para lidar com as opiniões divergentes, aliada a falta de empatia na internet, corroboram para o aumento de críticas ofensivas e desrespeitosas. Desse modo, é peremptório, na contemporaneidade, debates acerca dos impactos na capacidade do homem de dialogar e aceitar discursos contrários a opinião majoritária.
Nesse contexto, parafraseando o poeta italiano Giacomo Leopardi, nenhuma qualidade humana é mais intolerável do que a intolerância. Partindo desssa reflexão, nos dias atuais, por meio do boicote e do linchamento virtual, muitas pessoas praticam a intolerancia deliberando críticas ferozes -por vezes sem embasamento- a alguem que ousou discordar da opinião da massa. Dessa forma, lamentavelmente, pessoas incapazes de se colocarem no lugar do outro, julgam, punem e atacam constantemente figuras públicas que possuem comportamentos que desviam do padrão considerado “correto”, a exemplo do ataque a influencer Gabriela Pugliese que teve contratos de trabalho suspensos por ter reunido amigos em meio a epidemia do COVID-19. Assim, é inegável, que a cultura do cancelamento retrata a imperícia da população em tolerar e respeitar a divergência de ideia, cristalizando a concepção de que poucos sabem que discordar é diferente de cancelar.
Sob perspectiva adversa, o filósofo Michael Foucault, afirma que o poder está no discurso e tolerar a divergência é a saída para se livrar da prisão do pensamento. Sob essa óptica, no limiar do século XXI, em uma sociedade que está fechada ao diálogo e que não tolera discursos contrários, está fadada a permanecer na prisão do pensamento de Foucault. Nesse viés, grande parte das pessoas condenam condutas, isolam ou expulsam membros do seu grupo, por não estarem dispostos a escutar e aceitar um pensamento contrário. Assim, faz-se basilar fomentar o debate no âmbito virtual, pois, consoante a reflexão da escritora Evelyn Hall, eu discordo do que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo.
Depreende-se, portanto, que a cultura do cancelamento têm gerado impactos na população atual. Desse modo, é essencial que o Ministério da Comunicação promova debates onlines que abordam a necessidade do diálogo e respeito na internet, com intuito de fomentar a empatia e assegurar o direito à liberdade de expressão dos indivíduos. Assim, haveria a possibilidade de prosperar uma sociedade mais tolerante e disposta a ouvir.