Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 16/10/2020
Na obra “1984” do autor George Orwell, a realidade social da ficção é de que tudo está integrado nas “teletelas”, nas quais todos observam constantemente a rotina do outro. Esse conceito mostrado na sociedade distópica da obra é algo presente na realidade do mundo hodierno, sintetizado pelas redes sociais. Porém, o julgamento ético, na maior parte do tempo, também é feita pelos internautas, levando ao cancelamento do indivíduo julgado. Por isso, é importante entender o porquê da disseminação dessa cultura do cancelamento e que ameaça iminentemente a ordem social vigente.
Com o advento das mídias sociais, o ser humano passou a ter cada vez mais acesso às atividades de outros usuários, incluindo vídeos, imagens, textos em diversas plataformas, tornando-se parte do círculo social virtual do indivíduo exposto. E, como em qualquer relacionamento, pessoas tomam atitudes controversas dentro da internet - estando certas ou não - e ficam à mercê do “júri popular”, que pode interpretar livremente essa atitude, podendo usar informações e/ou publicações de dentro da própria rede para decidir se aquele “réu” está mesmo condenado à um cancelamento.
No entanto, os argumentos e provas utilizados para cancelar alguém nem sempre são confiáveis, o que torna essa cultura muito volátil, possibilitando consequências além de uma simples má reputação. A normalização do ato de cancelar alguém está conferindo à Internet um papel que, legalmente, não é de sua alçada, o que causa uma inversão de alguns papéis na sociedade, por exemplo, se o discurso do cancelado fere a legislação, ele tem de ser punido por autoridades legais, que julgarão constitucionalissimamente o caso. Portanto, quando o usuário usurpa o papel de outro órgão social, arrisca o direito à democracia, uma vez que uma pequena ordem é mudada na sociedade, abre exceção a novas mudanças, pondo em risco todos os outros direitos de cada indivíduo.
Em suma, medidas são necessárias para inibir essa cultura. Por isso, o Ministério da Justiça, juntamente com o MEC e empresas ligadas à mídias sociais devem criar uma campanha de redução dessa atitude de cancelamento no meio virtual. Dessa forma, necessitam ser realizadas palestras e oficinas informativas sobre as penalizações de crimes cibernéticos e maneiras de amenizar a propagação da odiosidade nessa conjuntura, com a finalidade de conscientizar os presentes sobre dos riscos do comportamento antiético nas redes. Essas atitudes devem ser tomadas para que a distopia de “1984” não seja a realidade que “cancele” o bem-estar social.