Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 23/10/2020
A cultura do cancelamento foi eleita o termo do ano de 2019, segundo o dicionário Macquarie. Famosos como Harvey Weinstein, Gabriela Pugliesi e Mc Gui são exemplos de cancelados na atualidade por apresentarem condutas criminosas, como estupro pelo primeiro e irresponsáveis como festa na pandemia pela segunda ou zoação a uma criança doente pelo último. Entretanto, essa nova forma de se rebelar contra uma atitude ou posicionamento, ao mesmo tempo que pode dar voz a questões antes pouco debatidas, pode gerar injustiças sociais e impactar sobremaneira no exercício da democracia.
Em primeira análise, nota-se que o advento da tecnologia, especificamente das redes sociais digitais, proporcionou uma ampliação de discussão de assuntos outrora parcamente dialogados, tais quais o racismo, o bullying e a depressão. Essa nova realidade indiciou mudanças em ambientes sociais físicos, o que permite um posicionamento mais rigoroso acerca de atitudes historicamente desrespeitosas ou pejorativas. Em contrapartida, observa-se nos últimos anos um acirramente de opiniões de caráter quase dogmático nas mídias sociais, tornando-se um cenário no qual somente um dos lados possui razão e o outro é cancelado. Isso impede a justa medida - conceito aristotélico - para propagação de uma ideia coesa para o bem comum.
Outrossim, ressalta-se o desafio em ponderar a cultura do cancelamento para não incorrer em injustiças, uma vez que o costume contemporâneo ironiza ou tenta desconstruir imagens daquilo que não concorda. Assim, postagens de um indivíduo ou grupo realizando atitudes benéficas podem ser motivo de críticas extremas, principalmente se feita por grupos “rivais” ou pouco aceitos, como congregações religiosas de outras matrizes. Sendo assim, a cultura do cancelamento, da forma unidirecional como praticada atualmente, torna-se um entrave ao exercício dos direitos da livre manifestação de pensamento e da liberdade de expressão, o que leva a uma involução do aparato social e pessoal.
Para que, portanto, a cultura do cancelamento não se torne um obstáculo ao convívio social mas sirva para um debate amplo e coerente de questões relevantes - como superação do racismo e das iniquidades - cabe a educadores, líderes de comunidades, profissionais do sistema judiciário e comunicativo oportunizar novas mobilizações e formas de diálogo, mediante a criação de fóruns púbicos de discussão. Além disso, é fundamental a cobrança aos entes governamentais sobre as responsabilidades das empresas virtuais quanto ao estabelecimento de regras no mundo das redes sociais digitais.