Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 12/10/2020

“O mais escandaloso dos escândalos é que nos habituamos a eles”. Essa afirmação da filósofa existencialista Simone de Beauvoir pode servir de metáfora à questão da cultura do cancelamento na atualidade. Visto que, por mais escandalosa que seja a situação poucos são os esforços destinados para resolvê-la. Dito isso, vale salientar as causas e consequências da problemática, que estão relacionadas à naturalização da agressividade como forma de justiça e ao descaso do Estado.

A princípio, acentua-se a banalidade da violência como ato de juízo como um dos principais agentes do tema. De acordo com o teórico Hippolyte Taine, o homem é produto do meio, raça e momento histórico em que vive. Assim, lembra-se da Lei de Talião, mais conhecida como norma do “olho por olho e dente por dente”, a qual permitia e incentivava a reciprocidade da violência como forma de julgamento por um crime. Desse modo, percebe-se como a brutalidade foi enraizada na sociedade como ato racional e legal. A diferença é que na Lei de Talião a bestialidade era aplicada fisicamente e era possível identificar os agressores, já no cancelamento o linchamento é virtual e os atacantes dificilmente são identificados por serem muito numerosos.

Além disso, o descaso estatal se destaca como agravante do empasse. Sob esse viés, o sociólogo alemão, Dahrendorf, afirmou, em seu livro “A lei e a ordem” que anomia é o estado no qual as normas que regem o comportamento das pessoas perdem a sua validade. À vista disso, pode-se alegar que as leis que impedem os ataques virtuais do cancelamento se encontram em estado de anomia, consequentemente, não punindo os agressores e prejudicando a vítima dos psicologicamente. Nesse viés, temos como exemplo o influenciador digital Spartakus Santiago dono, do canal Spartakus, o qual sofreu linchamento virtual e ao participar do quadro “Mude minha ideia” do GNT falou como isso afetou a sua vida. Ele ainda comentou “Você vê o seu nome sendo exposto por semanas para milhares de pessoas que nem te conhecem e ficam te xingando pelo que nem sabem”, “Começa com uma frase que você disse há 2 semanas depois procuram coisas de 5 anos atrás para julgarem, é uma corrente de ódio sem fim” e completou “Precisei de muita terapia para me recuperar”.

Portanto, é mister que o Estado tome medidas para amenizar o quadro atual. Urge que o Ministério das Comunicações, com o auxílio de profissionais em T.I. e recursos dirigidos ao ministério, crie um algoritmo capaz de identificar comentários de ódio os quais possam impulsionar uma corrente de ódio, e impeça a sua publicação, com a finalidade de impedir a prática da cultura do cancelamento. Somente assim será possível acabar com esse escândalo.