Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 13/10/2020

Popularizado e difundido a partir de movimentos de denúncia como o #MeToo, que expunha casos e nomes de agressores sexuais, o movimento começou com o decorrer do tempo a mudar de cara: não é mais necessário ter cometido um crime para ser cancelado.

Em meados de 2017, o termo cancelamento surgiu para nomear uma prática virtual que já vinha acontecendo: o boicote a personalidades, entre pessoas famosas ou não, que cometeram alguma violência dentro e fora do espaço virtual. O uso de um termo equivocado, uma expressão que reproduz preconceitos ou até mesmo o silêncio sobre um outro caso de injustiça já virou motivo de cancelamento. Há, é claro, quem defenda a cultura do cancelamento como meio de romper com a estrutura de poder que blinda pessoas privilegiadas na sociedade. Afinal, foi por meio dela que grupos minoritários conseguiram expor violações a direitos humanos e fazer sérias denúncias.

Enquanto alguns afirmam com veemência que a cultura do cancelamento nasceu com o #MeToo, em 2017, a pesquisadora Anna Vitória Rocha, mestranda em Ciências da Comunicação na USP que usa o #MeToo e o #primeiroassedio para debater o papel das mídias sociais nas discussões de assédio sexual nas esferas públicas, pensa diferente. Para ela, o termo pode até ter se consolidado aí, mas o ideal seria considerar a junção de uma série de fatores anteriores e esses movimentos que permitiram criar uma atmosfera favorável aos cancelamentos virtuais.

O que acontece, segundo a pesquisadora, é que a cultura do cancelamento foi perdendo o senso de proporção. Se antes cancelavam-se figurões de Hollywood acusados de abuso sexual, hoje se cancela alguém que usa um termo deturpado para se referir a algum tema do universo LGBT+, por exemplo. “As pessoas confundem o que é você estar agindo por ignorância ou estar reproduzindo um preconceito por ser parte de um grupo privilegiado”, afirma Anna.

Ainda há muito a ser feito em relação a esta nova cultura do cancelamento, criando regras de forma coletiva, é exatamente isso que essa nova tendência cria: a sensação de que não existe uma regra para todo mundo, e que quem falar mais alto sai ganhando, dificultando a convivência social. De certa forma, a cultura do cancelamento, por estar em um ambiente público, traz a oportunidade de pessoas entenderem as questões graves relacionadas ao racismo, entre outros preconceitos.