Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 12/10/2020

Termo do ano. Eleita pelo dicionário australiano Macquaire, a expressão “cultura do cancelamento” foi o termo mais utilizado nas mídias sociais no ano de 2019. Conquanto, ao contrário do ano, que chegou ao seu fim, os cancelamentos estão longe de atingir esse ponto. Não é difícil perceber que esse é o tópico do momento da sociedade contemporânea, já que de uma hora para outra um artista, político ou simplesmente qualquer um pode ser “cancelado” nas redes sociais. Entretanto, a cultura do cancelamento é como uma faca de dois gumes, onde as minorias que a utilizam para fazer com que sua voz seja ouvida podem acabar sendo vítimas dela.

O ato de “cancelar” alguém não é nada novo. Tomando como exemplo o ostracismo — ato de banir ou exilar um cidadão por dez anos — muito utilizado com políticos na cidade de Atenas no século V antes de Cristo, pode-se perceber certas semelhanças entre ele e o cancelamento. Porém, somente uma delas tem o objetivo de proteger a sociedade contra pessoas que poderiam causar graves danos políticos e cancelar pessoas nas redes sociais não se encaixa bem nessa descrição. Devido a vários motivos como esse, a eficácia desse método de punição pública é muito questionada, já que a mesma pessoa pode ser cancelada e descancelada várias vezes. Em algumas situações nada acontece.

O debate recorrente a esse tema é bem acirrado, já que várias opiniões e fatos estão envolvidos. A exclusão da fala do acusado é um ponto marcante, dado que a ‘internet’ tem memória eterna e os seres humanos são inconstantes, algo publicado há cinco anos não define a atual opinião do autor da publicação. Considerando que os contextos podem ser interpretados erroneamente, deixar com que um espaço aberto à discussões exista se faz mais do que necessário. Uma vez que se estabelece que o erro é passível de punição, todos estão suscetíveis a serem publicamente humilhados nas redes, pois todos erram.

Em virtude do que foi mencionado, entende-se que a cultura do cancelamento é algo perigoso. Podendo ser utilizada para trazer justiça, mas também sofrimento desnecessário, todos os usuários correm o risco de ser “cancelados”, não importando se o motivo está descontextualizado ou ocorreu há anos. Faz-se assim necessário que sejam estabelecidas regras para que os cancelamentos possam acontecer, deixando um espaço para que o diálogo exista e que para que uma desconstrução de opinião aconteça. Também, é importante que a Polícia Federal seja acionada, caso um crime virtual seja cometido por parte de quem cancela e de quem é cancelado, como racismo ou homofobia, por exemplo.