Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 17/10/2020
No período medieval, o Tribunal da Santa Inquisição consistiu em movimento político-religioso que promoveu uma perseguição indiscriminada e intolerante à diversidade de opiniões, com o objetivo de perpetuar uma estrutura de poder. Na contemporaneidade, tal brutalidade assume uma nova configuração chamada de “cultura de cancelamento” - movimento que está inibindo a livre troca de ideias e impedindo quaisquer manifestações que possam representar uma ameaça ao status quo.
Inicialmente, um entrave é que, em resultado da massificação acrítica da sociedade, ela age de forma perversa na internet. De fato, isso se liga ao conceito ainda hoje incompreendido da “Banalidade do Mal”, tratado por Hannah Arendt no livro “Eichmann em Jerusalém”. Um exemplo disso é o suicídio, em 2019, após massivos ataques, da blogueira Alinne Araújo, do perfil ‘Seje Sincera’ – fato que é tão grave quanto os horrores da “solução final” nazista ou da Inquisição na Idade Média, apenas mais complexo.
Outro desafio, segundo a International Fact Checking Network (IFNC), associação internacional de verificadores de fatos, é que a sociedade supere a “cultura de cancelamento”, caracterizada pelo partidarismo e parcialidade. De acordo com Paulo Freire, no livro Pedagogia do Oprimido, “o papel da liberdade de expressão, como um ato político, liberta os indivíduos”. O pedagogo demonstra que, ceder as rédeas do poder à “twittersfera” significa oferecer o controle ao pedantismo extremista.
Por tudo isso, urge romper essa realidade por meio da educação. Isso envolve a elaboração de novos currículos pelo Ministério da Educação, ao amparo da atual LDB (Leis de Diretrizes e Bases da Educação), orientados aos quatro níveis de ensino, com a temática “Liberdade de Expressão”. Deste modo, ensinada como direito fundamental, que se mostre como corolário da dignidade da pessoa humana, a liberdade de expressão deverá estimular a atitude de múltiplos sujeitos: individuais, coletivos e institucionais minimizando a cultura do cancelamento, ampliando as responsabilidades com as futuras gerações.