Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 11/10/2020
Durante a Idade Média, o Clero Católico ocupava o mais alto estrato social da época. A religião, que tinha grande influência naquela sociedade, condenava à morte publicamente os hereges, ou seja, aqueles que se desvirtuavam da Igreja Católica, a fim de ensinar às demais pessoas o que aconteceria com quem não seguisse os dogmas do catolicismo. Embora pareça uma realidade muito distante, no contexto contemporâneo os usuários da internet assumem o papel da Igreja Católica, pois esses também condenam publicamente todos aqueles que agem de maneira julgada incorreta nas redes, fenômeno conhecido como cultura do cancelamento. Contudo, embora a cultura do cancelamento seja fundamentada em boas intenções, há consequências negativas para sociedade atualmente.
A priori, o cancelamento no ciberespaço consiste em boicotar pessoas, sobretudo artistas e influenciadores digitais, que tem atitudes ou posicionamentos desrespeitosos ou preconceituosos nas redes sociais. Os internautas levantam “hashtags” em sites como Twitter e Facebook contra determinados indivíduos como forma de repudiar determinadas condutas, atuando como juízes virtuais. No entanto, uma vez cancelados, essas personalidades públicas recebem “unfollows” em massa, seus conteúdos deixam de ser consumidos, levando muitos até perderem patrocínios. Isso retrata o que aconteceu com o jornalista William Waack recentemente, que após ser acusado de racismo, foi cancelado de uma maneira tão intensa nas redes, como forma de protesto dos usuários contra o preconceito às minorias, que Waack foi demitido da emissora que trabalhava. Assim, o cancelamento teoricamente é uma ferramenta dos usuários de repreender atitudes ofensivas nas redes.
Todavia, na prática o cancelamento revela-se uma forma de linchamento virtual, na qual, pessoas aproveitam do anonimato proporcionado pelas mídias sociais para praticar o cyberbullying. Isto acontece porque as pessoas que são responsáveis pelo cancelamento muitas vezes atacam, ofendem, perseguem e ridicularizam tais figuras públicas, com atitudes que ironicamente, também seriam consideradas motivos de cancelamento. Assim, o ato de cancelar muitas vezes revela-se a manifestação da hipocrisia, pois na verdade é apenas um pretexto para propagar discursos de ódio, uma vez que esta ação não dá ao próximo a oportunidade para que ele aprenda com os próprios erros.
Logo, a fim de combater a cultura do cancelamento, Governo Federal poderia destinar parcela do Produto Interno Bruto para a Polícia Federal aprimorar o departamento de crimes virtuais. Isso seria feito a partir de um maior investimento na profissionalização de pessoas que trabalham com a tecnologia da informação, para garantir que todos bullies virtuais consigam ser rastreados e devidamente punidos. Dessa forma, talvez o cancelamento seja repensado por parte de quem cancela.