Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 12/10/2020
No livro ‘’ A República’’, de Platão, o autor retrata uma civilização em que todos os indivíduos empenham-se na construção da harmonia, isto é, do bem coletivo. Contudo, a prática cultural do cancelamento afasta o Brasil dessa sociedade utópica, posto que, o lixamento virtual acarreta na construção da violência moral condenável contra outra pessoa. No entanto, verifica-se que isso ocorre não só devido ao descaso das autoridades públicas, mas também em razão da má conduta adotada pela sociedade.
Nesse sentido, de acordo com a Carta Constitucional de 1988, é objetivo fundamental promover o bem de todos, assegurando à integridade física e moral do cidadão, reconhecendo que esse diz respeito à dignidade da pessoa humana. Entretanto, constata-se que o Poder Público não cumpre seu encargo de promover as garantias estabelecidas, uma vez que a postura imparcial exercida para o combate do cancelamento virtual consolida o desrespeito dos valores éticos-morais do indivíduo, o que gera a violação dos princípios referente ao tratamento desumano e degradantes garantidos pela Constituição brasileira. Dito isso, o Estado ao não exercer sua função social de promover o bem-estar comunitário restringe os cidadãos de sua cidadania plena, o que afasta a comunidade da civilização elaborada por Platão.
Outrossim, consoante ao preceito elaborado por Immanuel Kant, filósofo alemão, a ética humana deve ser seguida por meio de imperativos categóricos, ou seja, baseada em atitudes que visam o bem coletivo. Todavia, no cenário brasileiro essa teoria está em decadência, em virtude dos julgamentos virtuais no que diz respeito aos comportamentos dos cidadãos, coopera desse modo para a permanência de uma sociedade individualista. Dessa forma, a ausência de respeito à autonomia dos indivíduos que não seguem o padrão de conduta e possuem opiniões divergentes do agressor, sofrem retaliação virtual por meio de agressões morais e ridicularizações. Portanto, nota-se que a ideia de Kant não é aplicada, efetivamente, à sociedade.
Diante dos fatos mencionados, é imprescindível, portanto, a execução de ações para a construção de uma nação mais justa e igualitária para todos. Nesse viés, cabe ao Estado investir em campanhas socioeducativas voltadas à desconstrução de preconceitos acerca do cancelamento de pessoas e suas implicações, por intermédio da mídia, grande propagadora de informação e principal veículo formador de opinião, a fim de estabelecer uma conscientização social para o assunto. Com isso, a sociedade ilustrada por Platão será efetivada na coletividade brasileira com êxito.