Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 31/10/2020

No ensaio filosófico de Byung-Chul Han, “Sociedade do Cansaço”, o autor demonstra que a sociedade não é mais vítima de doenças microbianas e, sim, neurológicas. Nesse sentido, além do excesso de positividade, retratado por Han na produtividade, responsável por essas enfermidades, esse conceito é presente também na imposição de padrões sociais, estéticos, e até mesmo de personalidade. Infelizmente, com as altas inovações tecnológicas e globalização, esses padrões crescem cada vez mais a partir da internet, nas redes sociais, e, assim, quando não atendidos, os “hates”, ódio gratuito e a cultura do “cancelamento” tomam conta de uma sociedade escassa de empatia que torna os indivíduos cada vez mais doentes.

Em primeiro lugar, a alta exposição nas redes sociais é crescente, seguindo o modelo da Sociedade do Espetáculo, criado por Guy-Debord: indivíduos buscam transformar suas vidas em um show e ostentar a perfeição, objetivando sempre atender aos padrões impostos pela sociedade e demonstrar uma realidade nem tão real assim. Por conseguinte, essa intensa exposição traz consigo a vulnerabilidade à julgamentos externos, ainda mais na internet, onde as pessoas sentem-se muito mais a vontade para expressar suas opiniões, uma vez que a máscara virtual gera maior segurança. Com isso, comentários negativos não faltam; com os padrões e exigências cada vez mais elevados, qualquer ato de uma pessoa, figura pública ou não, é motivo para ser excomungado e “cancelado” da sociedade.

Em segundo lugar, a necessidade de buscar atender aos padrões sociais constantemente, já acarreta intensos problemas mentais aos indivíduos, somada à cultura do cancelamento, as consequências são incalculáveis, em vista de que nada parece ser suficiente para os “canceladores” de plantão. Dessa maneira, aqueles imersos no meio virtual são cada vez mais afetados e as doenças psicológicas só aumentam: segundo o site G1, 80% da população brasileira sofre com algum distúrbio mental como depressão e ansiedade, doenças geradas principalmente pela pressão e julgamentos externos. Tais fatos somente demonstram como a realidade virtual vem prejudicando gravemente a população contemporânea.

Destarte, o Ministério da Cidadania, por meio de um projeto de lei voltado à Câmara dos Deputados, deve reivindicar a classificação de ações virtuais que possam prejudicar a saúde mental de alguém como crime virtual, passível de multas e processos na justiça. Ademais, juntamente com o Ministério da Educação, deve cobrar projetos e aulas extracurriculares semanais, desde o ensino primário, alertando sobre as consequências da alta exposição na internet e a necessidade de empatia para com o próximo. Desse modo, espera-se que os efeitos da virtualidade sejam amenizados na sociedade contemporânea.