Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 04/10/2020

“Odiados pela Nação”, episódio da série televisiva futurística “Black Mirror”, retrata a utilização da tecnologia para exterminar pessoas selecionadas pela sociedade. Nessa narrativa, por meio de enquetes nas mídias sociais, o público adquire a função de julgar a pessoa pública que realizou alguma ação moralmente questionável. Fora da ficção, a cultura do cancelamento oferece uma proposta semelhante, visto que transforma os usuários das redes sociais em juízes das ações e posicionamentos de outros indivíduos - movimento que não apresenta efeitos positivos e ocasiona a promoção das personalidades afetadas. Ressalta-se que a crítica a comportamentos e posicionamentos que violam os direitos humanos é válida, a fim da reflexão e mudança do sujeito. No entanto, a transformação das mídias sociais em tribunais revela um aspecto preocupante da sociedade contemporânea, já que na prática do cancelamento é realizada de forma destrutiva e irracional. A também usada prática de vasculhar as redes sociais de uma personalidade pública, em busca de publicações antigas que gerem alguma justificativa para o cancelamento do sujeito, é nociva e nega a possibilidade de mudança e transformação do ser humano e da sociedade. Nota-se que o processo possui um aspecto punitivo em detrimento do educativo, conjuntura que não favorece a reflexão e o aprendizado. Desse modo “cancelar” alguém pode ocasionar o efeito inverso, por meio do marketing negativo. Assim, a cultura do cancelamento se torna uma ferramenta eficaz para a promoção de indivíduos que reproduzem pensamentos preconceituosos com o intuito de ganharem destaque nas redes sociais. Portanto, dado que é ineficaz e nociva, é válido que o Ministério da Educação (MEC), por meio de especialização oferecido a professores de Sociologia e Filosofia, implemente debates sobre o julgamento criado nas mídias sociais e incite a reflexão nos jovens e adolescentes, visto que são os principais usuários das redes. Assim a cultura do cancelamento será repensada e poderá se tornar um agente transformador da sociedade, oposto ao contexto apresentado em “Black Mirror".