Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 14/10/2020

O Dadaísmo, movimento artístico pertencente às vanguardas europeias do século XX, retirava os objetos de seus contextos originais e elevava-os à condição de obra de arte. Análogo a isso, tem-se a situação em que pessoas públicas são elevadas a um patamar de endeusamento e idolatria que a elas não é permitido o benefício do erro, sendo “canceladas” por desviarem da posição robotizada imposta. A partir desse viés, é válido discutir até que ponto a cultura do cancelamento é benéfica para a conscientização das pessoas e suas consequências quando de forma desmedida.

De início, é importante entender o movimento como hoje conhecido como “cultura do cancelamento” como uma forma de chamar atenção para causas relacionadas à justiça social, amplificando a voz de grupos oprimidos e forçando ações políticas por meio da indignação das pessoas. Percebe-se a importância desse espaço dado, principalmente, nas redes sociais para que as pessoas verbalizem as principais queixas. Porém, mesmo sendo necessária a discussão sobre erros de conduta, identifica-se uma certa desumanização no trato às pessoas “canceladas”, pois essas ao terem suas vidas sociais na internet cortadas, são completamente excluídas do vínculo coletivo e têm a vida resumida a um erro. Dessa forma, pode-se constatar o diagnóstico que o sociólogo Zygmunt Bauman fez da pós modernidade em que, segundo seu conceito, as relações escorrem pelo vão dos dedos.

Convém pontuar ainda, que essa tentativa de anular a vida do outro sustenta-se na premissa de justiça com as próprias mãos para servir como exemplo para os outros, como no período Medieval. Visto que as figuras públicas como blogueiras e famosos -por terem um maior alcance social- ao abordarem de maneira errada assuntos relacionados à minoria, têm suas carreiras comprometidas pelos justiceiros da internet. Isso porque essa nova cultura perpassa a lógica de conscientização, visto que não é dado ao “cancelado” a chance de remissão e as consequências do “cancelamento” duram enquanto o Google existir, atacando a reputação e ameaçando os meios de subsistência do cancelado no mercado de trabalho. Como exemplo disso tem-se o caso da blogueira Gabriela Pugliesi, que perdeu, em contratos, mais de 2 milhões de reais por ter sido “cancelada” na internet.

Uma mudança real para esse problemático cenário pode e deve ser feita por meio da imprensa socialmente engajada, pela capacidade que tem de amplo alcance populacional, pode, por intermédio das propagandas em veículos midiáticos, propagar os motivos pelos quais não se deve cancelar pessoas excluindo-as das interações sociais mas sim expondo os erros como um exemplo a não ser seguido e dando a chance de remissão às pessoas, pois a internet não deve ser um tribunal para julgamentos e condenações e sim uma plataforma para aprendizado.