Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 30/09/2020

O filósofo Thomas Mores, em sua obra Utopia, idealiza uma sociedade com parâmetros considerados perfeitos com ausência de conflito e em plena harmonia. Sob esse viés, a realidade brasileira encontra-se distante da descrita pelo autor, uma vez que as redes sociais iniciaram a cultura do cancelamento, a qual busca o julgamento das más condutas e pensamentos errôneos, principalmente machistas. Dessa forma, o debate acerca dessa prática é fundamental, pois intensifica problemas de saúde mental e a disseminação do discurso de ódio, interferindo na dinâmica social e dignidade humana, conforme assegurada na Constituição de 1988.

Mormente, a série Black Mirror, no episódio “Odiados pela nação”, retrata os ataques sofridos por um determinado grupo de pessoas nas redes sociais, devido pensamentos não aceitos no âmbito social, acarretando perseguições aos indivíduos. Nesse perspectiva, fora da ficção a realidade é semelhante, em virtude do uso das novas tecnologias na cultura do cancelamento, a qual proporciona o linchamento virtual e a busca por correções históricas, principalmente na luta feminista e no movimento negro. Consequentemente, essa ação ocasiona danos psicológicos para vítima e o agressor, em razão do sentimento de intolerância e os efeitos do julgamento digital na vida das pessoas, como o caso recente da blogueira Gabriela Pugliesi que sofreu problemas financeiros e na participação social, indo na direção contrária da Constituição de 1988.

Ademais, as redes sociais surgiram para facilitar a comunicação e informações, mas na sociedade contemporânea apresentou uma faceta negativa, por causa da disseminação do discurso de ódio, impulsionada pela cultura de cancelamento. Segundo o filósofo Francis Bacon, o comportamento humano é contagioso, torna-se enraizado a medida que se reproduz. Desse modo, os meios digitais idealizaram uma forma certa de pensar e agir, e os indivíduos que não seguem essa padronização acabam sendo excluídos da sociedade, caracterizando o julgamento virtual. Logo, essa atitude reflete na questão da violência com as próprias mãos e o debate acerca do limite da liberdade de expressão nos grandes canais, com fito de romper o cenário enraizado.

Dessarte, o Estado, na figura do Poder Legislativo, deve garantir a aplicação da Legislação de proteção aos usuários e cumprimento da fiscalização das redes sociais, por meio da criação de centros de monitoramento e denúncia, além de compartilhamento da importância da responsabilidade e os danos causados na vida das pessoas com linchamento virtual. Por fim, essas medidas têm o intuito de aproximar a realidade idealizada por Thomas Mores e romper a disseminação de discurso de ódio.