Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 29/09/2020
A crescente utilização das redes sociais para fins de discussão, ampliou o acesso popular em debates que envolvem justiça social, ideologias políticas e problematizações de caráter sociocultural. Apesar de ser um ótimo veículo para o exercício democrático, o uso irresponsável dessas plataformas apresenta uma perigosa faceta, a cultura do cancelamento. Esta, utilizada para expor indivíduos com comportamentos considerados inadequados, costuma operar via ataques difamatórios e sensacionalistas, que procuram penalizar a atitude do “infrator’, utilizando-o como um exemplo a não ser seguido.
Embora tal comportamento possua uma boa justificativa, visto que propõe uma coerção em relação à atitudes criminosas, como o racismo e a homofobia, a sua articulação costuma ser imparcial e marcada pelo ponto de vista do acusador. Logo, a subjetividade humana torna-se um fator problemático, visto que o julgamento por apenas um ponto de vista é um recorte da realidade, retratando o acontecido de forma parcial. Recentemente, o youtuber Lucas Neto, que produz conteúdos para crianças, sofreu diversos ataques de grupos conservadores, que o acusaram de insinuar práticas de sexo oral em uma garrafa. Contudo, essa movimentação foi baseada em um vídeo retirado de seu contexto, em que o apresentador experimentava uma garrafa cenográfica, que era feita de açúcar.
Dessa forma, fica evidente a relação entre essa postura e as famosas ‘fake news’, processo esse que ocorre pela falha sobre a verificabilidade dos conteúdos divulgados na internet. Outro aspecto que agrava essa anomia é a inabilidade sobre a prática do diálogo predominante entre os internautas, vide à violência que costuma ser empregada em suas acusações. Consequentemente, a vida de um cidadão que passou pelo julgamento desse ’tribunal popular’, acaba completamente desestruturada, expondo-o ao desemprego, ameaças, e à exclusão social pelo estigma resultante da exposição ao público.
A fim de evitar acusações injustas e parciais, é preciso o desenvolvimento de mecanismos de controle dentro das redes sociais. Estes, podem ser desenvolvidos pelas principais empresas do ramo, como o Facebook e o Google, desenvolvendo espaços específicos para debates que envolvam assuntos polêmicos, e administrados uma equipe de advogados especializados em legislação no cyber-espaço. Para fortalecer essa ação, cabe ao Governo a criação de portais que amparem vítimas de difamação no meio digital, assegurando a penalização do acusador por meio de multas e retirada pública das acusações infundadas. O espaço digital é uma prolongação imaterial das relações humanas, e assim como a vida real, necessita de justiça e transparência, objetivando a harmonia democrática para o discurso interpessoal.