Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 29/09/2020

O movimento contra assédio e agressões sexuais, conhecido como “Me Too”, surgiu em 2017 e expôs vários nomes famosos que teriam cometido crimes em Hollywood. Tal exposição havia como finalidade a promoção de repúdio às personalidades exibidas e a busca por justiças para casos que, até então, permaneciam silenciados. Nesse cenário, o cancelamento ganhou forças ao buscar mudanças efetivas na sociedade. No entanto, houve uma subversão do sentido original do cancelamento, o qual passou a motivar discursos de ódio na internet.

Em primeiro plano, é válido ressaltar que a cultura do cancelamento está sendo utilizada como forma de linchamento virtual, voltada a qualquer um com uma opinião diferente. Nesse viés, o problema não é a manifestação de um pensamento, visto que o direito de liberdade de expressão é garantido pela Constituição Federal, mas sim em relação à forma como esse ponto de vista é colocado, sendo manifestado com base em agressões verbais, falta de educação e antipatia. Dessa forma, as consequências disso podem ir além da perda de seguidores em redes sociais, patrocínio e contratos, haja vista que a saúde mental do indivíduo é prejudicada, já que foi rejeitado por parte do corpo social. Em meio a isso, uma analogia com o pensamento de Mário Sérgio Cortella mostra-se possível, uma vez que o filósofo explicita que compreender e aceitar não são sinônimos, ou seja, o fato de compreender alguém não significa aceitar as atitudes dessa pessoa.

Outrossim, é imperativo pontuar que o álbum lançado pelo pernambucano Chico Science, intitulado como “Da Lama ao Caos”, denuncia como o orgulho e a ambição impulsionam o ser humano, e isso gera caos. Ao tomar como norte a ótica do artista, é indubitável que, como os indivíduos são egoístas e movidos pela necessidade de fama e de glória, o cancelamento aparece disfarçado. Dessa maneira, ao cancelar alguém, o engajamento e a repercussão de likes aumentam, e ainda trazem consigo notoriedade, e até mesmo, possíveis oportunidades de publicidade.

Destarte, a partir dos fatos supracitados, fica evidente a premência de intervenções no atinente à cultura do cancelamento. Para tanto, cabe ao Executivo, por meio da criação de campanhas expositivas em parceria com à mídia , propagar o ensinamento de maneiras airosas de uso do poder de opinião e coletividade popular on-line, de forma a enfatizarem os benéficos conquistados com tais ferramentas. Além disso, essa campanhas, que serão mostradas em horário nobre, devem direcionar os indivíduos a usarem tais ferramentas para a união geral de discussões necessárias, de modo a criarem uma segregação entre o que deve ser cancelado ou coibido e o que deve ser resoluto e potencializado democraticamente. Só assim, o objetivo da cultura do cancelamento será a dissolução de infortúnios.