Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 28/09/2020

Nos últimos anos, com o crescimento da presença das redes sociais no cotidiano, observou-se a emergência da chamada “cultura do cancelamento”, isto é, o ato de boicotar e ostracizar um indivíduo que comete um ato considerado imoral pelo tribunal da internet. Análogo a um linchamento virtual, em tempos líquidos, julgamentos tão precipitados acabam por desumanizar e punir de forma injusta, desproporcional e permanente pessoas inocentes, urgindo uma discussão a respeito do tópico.

Porém, a fim de melhor compreender tal fenômeno, é preciso recorrer às bases sociológicas deste e, para tal, pode-se aludir ao ideário baumaniano. Em seus estudos sobre a modernidade, o sociólogo elaborou o conceito de liquidez para designar a volatilidade com que se processam não só o elevado contingente de informação fornecida em tempo real, mas também as próprias relações interpessoais. Hodiernamente, não se há tempo nem interesse em atrelar significado às coisas, pois, nas palavras de Bauman, “nada é para durar” de forma que o outro, desconhecido, torna-se apenas um avatar destituído de sua subjetividade, visto como algo substituível e, portanto, passível de “cancelamento”.

Similarmente, conceitos como ética e justiça, questões sólidas que demandam tempo e reflexão, perdem seu valor e são tratadas de forma leviana. Isso ocorre, pois a velocidade com que ocorreria um processo judicial é insuficiente para apaziguar a cólera passageira: a menor das infrações alheias deve ser julgada imediatamente e o infrator, ostracizado e humilhado virtualmente. Entretanto, às vezes, o que se limitaria a cyberbullying toma contornos na vida real mesmo que o acusado seja inocente. Um exemplo foi o caso ocorrido nos EUA com Emmanuel Cafferty, um imigrante não-branco, acusado injustamente de racismo por ter feito um gesto considerado supremacista enquanto estalava os dedos distraidamente. O homem foi denunciado no Twitter até que a pressão feita sobre a empresa onde trabalhava causou a perda do “melhor emprego que tivera na vida”, segundo o mesmo. Aqui, observa-se como a justiça com as próprias mãos, mesmo que em meio virtual, rapidamente sai do controle, tendo consequências facciosas tanto dentro como fora das telas.

Em suma, observa-se que a cultura do cancelamento é efeito direto de uma modernidade líquida que desumaniza os indivíduos e superficializa questões graves, resultando em injustiças. Dessa forma, a fim de mitigar o problema, é preciso que o Ministério do Trabalho, responsável pelo regulamento das relações trabalhistas, coíba demissões e quebras de contrato por meio da aplicação de sanções a empresas que decidam ceder à pressão virtual e prejudicar seus funcionários. Apenas assim, a cultura do cancelamento perderá sua força e os linchamentos virtuais permanecerão apenas mais um tópico líquido e, portanto, facilmente esquecidos.