Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 25/09/2020
Embora estejamos no século da ascensão de movimentos reacionários que buscam dar voz às minorias excluídas socialmente, a volta com maior intensidade da cultura do cancelamento está acarretando diversos linchamentos virtuais e oportunizando discursos de ódio e intolerância.
Com uma finalidade nobre, essa cultura surgiu em 2017 com movimento #MeToo, em que o intuito era denunciar os abusos sexuais sofridos dentro de Hollywood e responsabilizar os abusadores até então intocáveis devido a sua posição social. Todavia, o cancelamento está ultrapassando limites ao cancelar não só atitudes como também as pessoas. Indubitavelmente certas ações são inaceitáveis, haja vista que contemporaneamente rompemos com diversos pensamentos retrógrados e preconceituosos. Contudo, ninguém nasce desconstruído socialmente e todos têm o direito de argumentar democraticamente sobre o seu ponto de vista.
Ademais, há certa hipocrisia no ato de apontar o erro nos outros para se sentir moralmente superior. Esse fator, ainda mais impulsionado pelo advento da internet, força a criação e manutenção de uma imagem e princípios perfeitos. Diversas vezes os “canceladores” não consideram que comentários feitos por ignorância acontecem, mas que quem o fez pode ser instruído e aprender com os erros. Ao invés disso, quem cancela opta pelo linchamento virtual, sentenciando previamente e viralmente sem possibilitar nenhuma reflexão ou aprendizado ao linchado. Como resultado, tem-se a intolerância e o discurso de ódio disfarçado de justiça.
Portanto, embora o cancelamento tenha certos pontos positivos como mobilização de causas importantes, ele está perdendo seu sentido. Dessarte, cabe às mídias e à sociedade cooperarem para o fim dessa cultura do linchamento. Compete aos influenciadores, através de campanhas informativas sobre os males do cancelamento de fins supérfluos e quando essa cobrança se torna precisa e contributiva, auxiliar o público a identificar e diferenciar linchamento de justiça. Assim, com instrução, pode-se criar uma cultura do aprendizado e não do julgamento.