Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 27/09/2020

Na série “Black Mirror”, é retratada em um dos episódios uma sociedade onde as pessoas são atacadas por um enxame de abelhas, modificadas em laboratórios, com a finalidade de atacar aqueles que não seguissem as regras moldadas pela comunidade. Hodiernamente, o episódio é facilmente comparado aos constantes “cancelamentos”, especialmente nas redes sociais, nos quais há o incentivo ao julgamento em massa de uma conduta considerada errada perante ao coletivo, tal conduta instaura uma postura de irrespeito social. Dessa maneira, é notório que essa prática é um grave problema, visto que afeta a liberdade de expressão do indivíduo e entraves no amadurecimento pessoal.

De tal modo, a cultura do cancelamento intervém no direito da expressão individual livre. Nesse contexto, o filósofo francês iluminista Voltarie defendeu que todos os seres pensantes podem manifestar suas opiniões ainda que contrárias da dele. No entanto, a realidade se apresenta contrário ao pensamento exposto, haja vista que qualquer pensamento ou atitude contrário ao esperado por outrem, o indivíduo estará sujeito a um forte julgamento ou represália social. Assim, as pessoas passar a ter medo de falar o que pensam, tendo sua liberdade de expressão inibida para evitar o cancelamento e as suas implicações (psicológicas e financeiras), um exemplo dessa prática foi o suicidio cometido pela blogueira Alinne Araújo após comentários maldosos perante a sua atitude de casar sozinha,  os canceladores do “twitter” a intitularam como “biscoitera”- ato de ganhar fama com polêmica.

Ademais, as práticas de julgamento e represália social não abrem espaços para o amadurecimento pessoal. Sócrates, filósofo ateniense, utilizava o método socrático (ironia e maiêutica), que consiste na multiplicação de perguntas, induzindo ao interlocutor identificar através das contradições dos seus argumentos a sua ignorância e a partir da identificação dos erros construir novos conceitos. Desse modo, diferentes das concepções do filósofo, as atitudes dos “juízes” da internet impedem a construção do desenvolvimento e amadurecimento da pessoa julgada, uma vez que o direito de entendimento sobre o assunto é retirado e que, consequentemente, não acarreta mudanças em seus pensamentos e atitudes.

Mediante ao exposto, percebe-se que medidas são necessárias para alterar esse cenário. Para isso, o Governo Federal deve instruir a população, por meio de campanhas de conscientização, na TV aberta e redes sociais, ministradas por psicólogos e psiquiatras abordando as consequências causadas pela prática do cancelamento, com depoimentos reais de pessoas que sofreram danos após o julgamento, no intuito de diminuir o discurso de ódio na internet e formar um senso crítico para identificar e combater retaliações nas redes sociais.