Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 24/09/2020

A Inglaterra retratada no livro “A sétima cela” possui um novo sistema judicial, no qual o réu é julgado pela população. Semelhante a distopia, a internet hoje está cheia de usuários que, ao se depararem com um comportamento moral ou politicamente incorreto de uma pessoa pública ou não, buscam fazer justiça “cancelando” o responsável. No entanto, o ato de “cancelar” alguém, inicialmente efetivo, tem se tornado ineficaz, prejudicando pessoas inocentes.

Primeiramente, é importante entender que “cancelar” alguém significa que essa pessoa e o que ela produz será completamente ignorado caso ela cometa algum erro grave. Essa cultura do cancelamento ganhou força em 2017 com o movimento #MeToo, que utilizou as redes sociais para unir vítimas de assédio e abuso sexual, além de expor nomes de agressores e fazer denúncias virtuais, que eventualmente se transformaram em acusações reais. Essa mobilização resultou, por exemplo, no cancelamento e na prisão do ex-produtor Harvey Weinstein.

Entretanto, com o tempo, os usuários das redes sociais se tornaram mais críticos e intolerantes, e qualquer gesto ou comentário pode ser o motivo para cancelar alguém. Um exemplo disso é o que aconteceu com Emmanuel Cafferty: ele fez um sinal de “OK”, que acabou sendo interpretado como um gesto usado por movimentos supremacistas brancos. A imagem dele foi publicada no Twitter e algumas horas depois, ele foi demitido por ter sido denunciado como racista nas redes sociais e tem tido dificuldade para conseguir outro emprego.

Dessa forma, depreende-se que a cultura do cancelamento revela uma sociedade extremamente intolerante. Por isso, é importante que a Secretaria dos Direitos Humanos promova campanhas que falem sobre as consequências dessa prática, explicitando a importância do diálogo, a fim de tornar as pessoas mais condescendentes.