Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 24/09/2020
O mito da caverna, de Platão, descreve a situação de pessoas que se recusavam a observar a verdade em virtude do medo de sair de sua zona de conforto. Fora da alusão, a realidade brasileira caracteriza-se com a mesma problemática no que diz respeito ao cancelamento de famosos e anônimos na internet em decorrência de um fato isolado. Nesse contexto, a cultura do cancelamento é um desafio no Brasil e persiste devido, não só à acusações rasas, mas também à imprudência no uso das redes sociais e mídias massivas. Convém ressaltar, a princípio, que a acusação baseada num evento momentâneo é um fator determinante para a persistência do problema.
Na obra “Modernidade Líquida”, Zygmunt Bauman defende que a pós-modernidade é fortemente influenciada pelo individualismo. A tese do sociólogo pode ser observada de maneira específica na realidade brasileira, no que tange ao cancelamento. Essa liquidez que influi sobre a questão da falta de empatia no que tange a acusações baseada em achismo funciona como um forte empecilho para sua resolução.
Além disso, Conforme Pierre Bourdieu, o que foi criado para ser instrumento de democracia não deve ser convertida em mecanismo de opressão. Nessa perspectiva, pode-se observar que a mídia, em vez de promover debates que elevem o nível de informação da população, influencia na consolidação do problema. Em virtude do cancelamento, a influencer Gabriela Pugliesi perdeu diversos trabalhos e patrocinadores em decorrência de uma festa durante a pandemia. Dessa forma, tal atitude vai em desencontro da fala de Bourdier.
Portanto, indubitavelmente, medidas são necessárias para resolver esse impasse. Assim, especialistas no assunto, com o apoio de ONGs também especializadas, devem desenvolver ações que revertam a má influência midiática sobre o cancelamento. Tais ações devem ocorrer nas redes sociais, por meio da produção de vídeos que alertem sobre as reais condições da questão, comparando com o tratamento que a mídia dá com relatos de pessoas que de fato vivenciaram tal problema. É possível, também, criar uma “hashtag” para identificar a campanha e ganhar mais visibilidade, a fim de conscientizar a população sobre as consequências do tratamento que determinados canais de comunicação dão ao assunto. Somente assim o pensamento de Bourdier pode se tornar empírico.