Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 23/09/2020
No livro “A Sociedade do Espetáculo”, é feita uma crítica tanto ao consumismo que domina a sociedade capitalista, como à importância excessiva dada, pelos indivíduos, a sua imagem perante as outras pessoas. Analogamente, a procura de uma imagem perfeita na Era Contemporânea se mostra por meio da cultura do cancelamento, na qual os indivíduos que não seguem os valores morais vigentes são excluídos em muitas esferas - como no meio digital. Acerca desse processo, pode-se citar como causa a maior exigência, por parte da sociedade, de condutas condizentes com os valores que nela imperam, o que promove a marginalização exagerada dos cancelados.
A priori, segundo o magistrado José Renato, em seu livro “Ética Geral e Profissional”, os indivíduos contemporâneos tendem a exigir que as pessoas de seu ciclo social e que as empresas, das quais são clientes, estabeleçam condutas condizentes com a moral imperante na sociedade - caso contrário, tanto as empresas quanto os indivíduos estão sujeitos a exclusão intensiva. Sob tal óptica, como dito por José, o mercado está aberto e favorável apenas aos entes que respeitem essas exigências, assim como os grupos sociais procuram se relacionar primordialmente com indivíduos moralmente alinhados. Dessa forma, há o fortalecimento do “cancelamento” de qualquer pessoa ou instituição que tenha algum comportamento não aceito moralmente - como pôde ser visto no recente caso em que um cachorro foi morto por um funcionário dos mercados Carrefour e, segundo o jornal Oglobo, a empresa arcou e arca com severos boicotes e perda de clientes nos meios digitais e físico.
Além disso, é importante comentar que, mesmo incentivando condutas mais éticas, a cultura do cancelamento pode marginalizar indivíduos. A esse respeito, pode-se comentar o caso da ex-atriz pornô Mia Khalifa que - de acordo com o site Change.Org - mesmo divulgando se arrepender de seu emprego e levantando uma petição para a retirada de seus vídeos da internet, ainda sofre inúmeros preconceitos nas redes sociais e no mercado de trabalho. Nesse sentido, percebe-se que tal exclusão, apesar de visar uma sociedade melhor, vai contra os ideais de respeito e aceitação.
Com base no exposto, é evidente não só a relação da cultura do cancelamento com as exigências morais contemporâneas, como a necessidade de combater a a marginalização promovida por ela. Para tanto, o Poder Legislativo deve, por meio de uma lei entregue à Câmara dos Deputados, estabelecer limites para o “cancelamento” nos meios digitais. Assim, tal lei estabelecerá que se, após a denúncia da vítima em certa rede social, o perfil delatado continuar a propagar mensagens de exclusão, esse será bloqueado permanentemente dessa rede social. Com isso, as mazelas da cultura do cancelamento e os problemas contemporâneos relatados no livro serão controlados.