Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 05/10/2020

Zygmunt Bauman, um influente sociólogo e filósofo do século XXI, em entrevista ao jornal El País, afirma que as redes sociais são muito prazerosas, mas são uma armadilha. No que concerne a essa afirmativa, pode-se observar como esta se evidencia, hodiernamente, com a falta de diligência nas redes sociais, no que diz a respeito da tentativa, muitas vezes supérflua, de tentar conter o discurso de ódio por meio da difamação de indivíduos. Desse modo, criou-se a “cultura do cancelamento” na sociedade, com o intuito de prejudicar determinadas pessoas que se manifestam de maneira preconceituosa. Entretanto, ora a intolerância para com esses alvos do “cancelamento”, ora a falta de diálogo, são os principais responsáveis por tornar essa prática nociva.

É importante ressaltar, em primeiro plano, que a cultura do cancelamento por parte dos internautas surge de uma necessidade de conscientizar e corrigir o diálogo preconceituoso, atribuindo uma punição a qualquer pessoa com ações consideradas erradas. Porém, além de promover um discurso mais civilizado em rede social, observar-se o desenvolvimento de uma padronização no comportamento ético do usuário. Nesse contexto, a antropóloga e cientista social Rosana Pinheiro afirma que “cancelar é sempre negativo. O problema não é a crítica, mas sim é quando isso escorrega para uma negação do sujeito". Logo, a cultura do cancelamento não trás nenhum tipo de conscientização para a população, ademais revela a intolerância de milhares de pessoa que não buscam de fato a democracia e “desconstrução” do discurso tradicional, e sim a expulsão de usuários com pensamentos contrários.

Cabe mencionar, em segundo plano, que para o filósofo alemão Jürgen Habermas, é essencial para a sociedade o pensamento próprio, o debate de ideias e o direito de expressão. Bem como, defende a ideia que os cidadãos se comportam como um corpo público, representando uma esfera pública social que serve de mediadora entre a sociedade e o estado. Assim, a partir dessa filosofia, pode-se concluir que para essa opinião pública seja de fato formada, deve existir a liberdade de expressão e o debate. Entretanto, no que diz a respeito da conduta dos internautas na hora de cancelar celebridades ou anônimos, sem se aprofundar nas causas sociais e históricas que levaram à ação desses, evidencia-se a falta da comunicação e, por conseguinte, a negligência de direitos sociais.

Destarte, é imprescindível que o Poder Público se responsabilize por discursos de ódio incorporados na cultura do cancelamento. Ou seja, aqueles que, diferente da liberdade de opinião, defendem a supressão do direito do outro. Ademais, fará essa ação por meio do desenvolvimento de debates abertos, dirigidos pelo Ministério da educação, sobre temas polêmicos e diversos, realizados em todos os institutos de educação. Dessa forma, garantirá o respeito e menor intolerância dos usuários.