Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea
Enviada em 24/09/2020
Na sociedade contemporânea, a existência no mundo virtual equivale-se a existência no mundo real. Nesse sentido, a psicanalista brasileira Maria Homem, equipara as redes sociais a um grande espelho, no qual o indivíduo moderno busca a compreensão e a aceitação de si através do olhar do outro; quando o contrário acontece, há um romper de expectativas que causa grande sofrimento. Dessa forma, o cancelamento nas redes é uma espécie de morte no universo simbólico, posto que a pessoa “cancelada” perde a influência que até então exercia na comunidade na qual estava inserida, o que pode ser doloroso e trazer consequências drásticas.
Primeiramente, faz-se imperativa a ressalva de que a cultura do cancelamento é mais uma expressão do autoritarismo presente nos indivíduos, que se veem como juízes, aptos a julgarem o comportamento alheio. À vista disso, cabe a dialética hegeliana que afirma que o ser humano, na tentativa de impor-se enquanto sujeito soberano, busca reduzir o outro à posição de substância, que pode ser moldada de acordo com seus gostos e vontades. Sendo assim, quando alguém não atende as expectativas de uma pessoa ou de um grupo, o que resta a ele é o cancelamento.
Ademais, apesar de muitos justificarem o cancelamento como uma prática que ascende debates sobre um determinado assunto, o que acontece, na maioria das vezes é o contrário. Uma vez que, a hostilidade contida nos cancelamentos, muitas vezes, impede que o “cancelado” reflita sobre suas atitudes, uma vez que é da natureza humana posicionar-se frente à violência com ainda mais violência - contra os outros ou até contra si mesmo. A exemplo, ainda nesse ano, o “influencer” conhecido como Reckful, que já sofria de doenças mentais, após ser fortemente criticado por pedir sua namorada em casamento pelo twitter, cometeu suicídio, o que ascendeu o debate acerca das consequências da cultura do cancelamento e de como estas podem drásticas.
Posto isso, apesar do cancelamento ser um problema de escala global, é necessário que o Brasil tome medidas para reduzir os danos causados por esse dentro do território nacional. Dito isso, é importante ter em mente que a cultura do cancelamento, apesar de ter aflorado com o fenômenos das redes, tem por origem a dificuldade individual de lidar com a alteridade alheia. Por conseguinte, são necessárias mudanças na base educacional do país, o que pode ser feito por meio da promoção - pelo Ministério da Educação junto da Secretária de cultura - de palestras e debates, dentro das instituições de ensino básico, que visem o respeito as diferenças presentes no mundo contemporâneo, sejam elas políticas, religiosas ou de qualquer outra natureza , dentro ou fora das redes, a fim de incentivar o diálogo e mostrar que o ato de “cancelar” pessoas, não torna o mundo um lugar melhor e mais justo.