Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 27/09/2020

A internet surgiu no contexto da Guerra Fria, momento em que qualquer inovação tecnológica poderia contribuir na disputa liderada por duas potências de blocos ideológicos antagônicos. Nesse sentido, essa ferramenta tornou-se parte fundamental da sociedade, visto que dita as relações por meio da comunicação e informação. No entanto, desenvolveu-se nesse meio digital a cultura do cancelamento, de modo que é necessário debater sobre os avanços desse hábito contemporâneo e os contrastes ocasionados por esse fenômeno.

Convém analisar, inicialmente, que no século XVIII, o iluminismo - corrente filosófica - pregava que uma sociedade só iria progredir a partir do momento que os indivíduos mobilizassem uns com ou outros. Nessa lógica, a cultura do cancelamento pode ser associada a mobilização dos cidadãos para promover mudanças, pois o uso das redes sociais para frear ou impedir discursos e atitudes que vão contra os direitos humanos alcançados e garantidos constitucionalmente significa um progresso. Em outras palavras, cancelar um sujeito por ter discursos que ferem ou se contrapõe à direitos é fruto de uma sociedade que tem se esforçado para promover a equidade e mitigar o racismo, preconceito e misoginia, por exemplo, enraizados na sociedade que durante tempo se conformou com essas ações.

Sob outro aspecto, em um país que possui a liberdade de expressão, cada sujeito tem o direito de se defender. Entretanto, a cultura de cancelamento as vezes “atropela” esse direito, uma vez que o cidadão é criticado antes mesmo de poder se defender e voltar atrás. Por consequência, em uma sociedade Hiperconectada, sentido atribuído a ela pelo filósofo Pierre Lévy, o engajamento nas redes sociais novamente acaba sendo dificultado devido à imagem negativa do usuário causada pelo cancelamento. Ademais, a exclusão vai além de somente ejetar da posição de influência, visto que na maioria das vezes esse indivíduo tem que lidar com as ofensas que recebe. Logo, apesar dos avanços, a cultura do cancelamento, também representa uma contradição pautada no uso da violência verbal, por exemplo, para argumentar a favor do que é considerado moralmente correto no ambiente virtual.

Fica evidente, portanto, a necessidade de medidas para amenizar os impactos negativos. Logo, cabe ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações promover campanhas midiáticas que falem os riscos da cultura do cancelamento por meio de anúncios, propagandas e rádios que discutam e encenam os limites entre corrigir e alertar sobre discursos preconceituosos, e desrespeitar de forma a tirar o direito de fala do indivíduo afetado com intuito de extinguir as ofensas nas redes sociais e promover o respeito mútuo na internet independente de cancelar ou não um influenciador digital.