Debate sobre a cultura do cancelamento na sociedade contemporânea

Enviada em 21/09/2020

O episódio “Odiados pela nação”, da série “Black Mirror”, retrata inicialmente o ataque sofrido por algumas pessoas através das redes sociais devido ao posicionamento e pensamentos não aceitos socialmente. De maneira análoga, na realidade brasileira hodierna, a cultura do cancelamento figura como um dos principais entraves a ser combatido, tendo em vista suas características violentas e autoritárias. Esse quadro é reflexo não só de um país historicamente intolerante, mas também de uma sociedade pautada pelo controle.

Convém ressaltar, a princípio, que a dificuldade de respeitar diferentes comportamentos e pontos de vista configura um fundamento do impasse. Diante disso, o cancelamento de pessoas no mundo virtual revela um aspecto histórico do Brasil: o autoritarismo, incitando a intimidação daqueles que não seguem a opinião majoritária de um grupo a fim de silenciá-los. Assim, a verificação de uma comunidade virtual excludente e opressora é a materialização da intolerância, já existente, em um meio no qual esse tipo de atitude ganha respaldo rapidamente pela disseminação de discursos de ódio. Tais condutas contrariam a “Teoria da ação comunicativa”, modo pelo qual o tecido social interage mediante o debate plural e racional, com o intuito de alcançar o entendimento mútuo, do sociólogo alemão Jürgen Habermas. Nota-se então, o diálogo como essencial para desenvolver boas relações de convivência.

Outrossim, a vigilância e o incessante controle coletivo tornam o ato de cancelar alguém corriqueiro e normalizado. Nesta perspectiva, o filósofo francês Michel Foucault afirma que o monitoramento, associado à punição, favorece a “disciplinarização dos corpos”, fenômeno cujo domínio sobre crenças, hábitos  e saberes prevalece de forma a padronizar certas ideias. Isto posto, é possível perceber que esse tipo de cultura é produto da “sociedade do controle” descrita pelo pensador, uma vez que as redes sociais são espaços de observação acessível e não só os linchamentos, como também ameaças de morte caracterizam tentativas de penalizar pessoas por suas ações ou convicções divergentes. Dessa maneira, a internet converte-se em um lugar onde todos podem julgar e “descartar” vidas injustamente.

Destarte, fica claro que medidas devem ser tomadas para resolver esse entrave. Portanto, para que esse comportamento cibernético seja extinguido, urge ao Governo Federal, por meio de uma lei formal, criar um órgão público que fiscalize de maneira eficaz as redes sociais e organize projetos de campanha que alertem as reais condições dessa problemática. Consequentemente, as publicações de ódio voltadas para o cancelamento devem ser excluídas e o responsável por elas, banidos temporariamente da plataforma. Somente assim, é possível tornar a internet um local agradável e que preza pela saúde mental de seus usuários, baseado no diálogo plural e respeitoso.